Cultura

Intelectuais de Latrina

Há uma raça de intelectuais, bastante vulgar cá no burgo, que, sem nada que especialmente os recomende, opinam por dá cá aquela palha. Ouvem-se, lêem-se, debitam as coisas mais extraordinárias como verdades universais indiscutíveis. ..

Recentemente, São José Almeida, no livro “Os Homossexuais no Estado Novo” repescou uma história sobre a suposta homossexualidade de Jorge de Sena que teria motivado a sua expulsão da Marinha. Não há, nunca houve, base sólida que suporte tal hipótese. Já quase ninguém fala nela e sempre que dela se fala é bastante controvertida. No caso vertente meter Jorge de Sena ao barulho só pode ter o objectivo de dar mais lustro ao livro. A autora, assumindo essa opção, foi recolher o depoimento de Eduardo Pitta e Fernando Dacosta. Este, depois de dizer que “Salazar vivia rodeado de gays”, um excesso de linguagem poder-se-ia pensar se, sobre Jorge Sena não fizesse com o maior desplante, uma afirmação espantosa: “Casou. Fazia praticamente um filho por ano, o que é uma atitude muito normal nos homossexuais” e, sibilinamente, conclui “Conheci-o”. Para alguém sobre quem se diz, na biografia exposta na Wikipédia e nunca por ele contestada, que teve o privilégio de conviver intimamente com algumas das maiores figuras da cultura e da política portuguesa do século XX, da Oposição bem assim como do Estado Novo, que de certo modo se lhe confidenciaram, incentivados pela sua personalidade discreta e cativante, acrescentar este conheci-o é estar a passar a hipótese de saber o que ninguém mais sabe, legitimando  subliminarmente a história sobre que lhe pediram opinião, para dar credibilidade à infâmia. Recursos desse jaez não escapam a esta luminária que nenhum vício lógico trava e para quem “fazer praticamente um filho por ano é uma atitude muito normal nos homossexuais”.


Poder-se-à presumir que, para Dacosta, todos os homens são potencial ou efectivamente homossexuais e cada filho corresponde a um atitude muito normal de ocultação da homossexualidade. Que se ponham a pau os que fazem menos filhos, malta menos capaz de ocultar a homossexualidade que o Jorge de Sena que, “numa atitude muito normal nos homossexuais” fez dez filhos. Quem não fez filhos vive um drama para que terá que encontrar uma saída. Provavelmente a melhor é exibir publicamente uma aura de machão integrando-se num grupo de forcados para enfrentar de mãos nuas o touro. Embora aquelas calças apertadas e as posições a que são obrigados para dominar o bicho acabem por deixar perpassar o perfume da dúvida. Riscos que se correm para travestir a homossexualidade. Numa próxima oportunidade, Dacosta há-de analisar essa situação com a mesma agudeza com que analisou o Sena.
Fernando Dacosta é useiro e vezeiro em dizer, com ar contido para ampliar a credibilidade, as maiores enormidades. Mais grave é essas brutalidades encontrarem eco numa comunicação social patética. Ainda não há muito tempo foi registar as confidências da D. Maria para esboçar o retrato do António-Homem que existia por detrás do Salazar-Ditador. Esta de descobrir o homem por detrás da sua imagem pública é ideia muito expandida num caldo de cultura das revistas socialites. É uma ideia parva. Procuram o homem? Queriam que lá estivesse o quê? Uma barata? Um ornintorrinco? Adiante!

Dacosta edulcora a imagem de Salazar com escassas colheres de açúcar, o doutor sempre foi muito poupadinho e a D. Maria, embora escancare as portas da dispensa, não perdeu bons hábitos. Descobre “verdades” fantásticas capazes de virar a história do avesso.

Uma delas é que “a PIDE matou Delgado sem o seu conhecimento”.

Controlando a PIDE com rédea curta não é possível a ninguém de bom senso acreditar que o ditador estava a leste de toda a tramóia que atraiu Delgado ao local onde foi assassinado. Pode-se especular que a eliminação física do general não seria uma prioridade, mas seria um cenário sempre possível, como veio a acontecer. Salazar não o podia ignorar e todo o processo só poderia ter sido desencadeado com o seu conhecimento e aprovação, independentemente do desfecho. A atitude posterior de Salazar, quando se descobriu o crime, tecendo uma intriga em que envolvia os companheiros de luta do general e protegendo com unhas e dentes os seus autores é bem esclarecedora da tenebrosa personalidade e mentalidade do ditador. Evidências atropeladas pelo Fernandinho entretido a ouvir as confidências da D. Maria.

Declaração ainda mais extraordinária é a de Salazar “ter sugerido a fuga de Cunhal da prisão de Peniche”. Não se sabe por que meios nem como. D. Maria cicia e o Dacosta esfrega as mãozinhas de contentamento antes de vomitar tão magna confidência. O que ninguém, com um mínimo de bom senso, pode sequer imaginar é a PIDE facilitar o caminho de fuga de Cunhal, ou a qualquer outro dirigente ou militante comunista e este esgueirar-se pela porta entreaberta. Sabiam bem de mais que do outro lado estaria alguém para o liquidar.

Nada disso incomoda o Dacosta entretido a passar a limpo as cusquices da D. Maria, com a pretensão de essas revelações serem capazes de mudar a história e, evidentemente, de vender mais uns livritos. Há mercado sempre disponível para absorver as coisas inomináveis que alimentam a mais rasca imaginação, atropelando qualquer lógica. Esta de tornar a D. Maria uma fonte histórica fundamental entra de corpo inteiro nesse caldeirão.

Essa actividade de intelectual de latrina, tornou-o conhecido e tem-lhe rendido dividendos. É solicitado para opinar sobre a homossexualidade do Sena, para esclarecer zonas sombrias de Salazar e do Estado Novo, para fazer parte de conselhos editoriais, intrigar sobre as oposições ao fascismo, comentar os mais diversos acontecimentos, coscuvilhar a vida das pessoas para propalar coisas improváveis, dizer isto e mais aquilo com o ar discreto de quem fala verdade a mentir.

O eco que essa gente tem é bem revelador do estado a que se chegou nesta sociedade em uma mentira muitas vezes repetida é aceite como verdade, em que o excesso de informação mata e intoxica a auscultação da realidade, em que o excesso de imagens mata a imaginação, em que mesmo o mundo da investigação universitária está a ser invadido pelas mais variegadas problemáticas obscuras, como, há já uns anos, sublinhou Georges Steiner, afirmando que a esmagadora maioria das teses de doutoramento, pós-graduação, mestrado. etc., eram trabalhos praticamente inúteis que enchem as prateleiras das bibliotecas sem nada de substancial no seu conteúdo. Dava o exemplo das dezenas de milhares de teses que, num período de tempo relativamente curto e em todo o mundo, tinham sido escritas sobre Goethe e que mais não eram do que exercícios tautológicos. Referia ainda a sofreguidão com que se procura encontrar nichos de saber que pouco ou nada contribuem para o progresso das ciências nas várias áreas do conhecimento, com destaque para as chamadas ciências humanas. Cautelarmente o mundo universitário atribui-lhes altas classificações, para depois rapidamente caírem no limbo de onde tinham saído.

Nesse pano de fundo, mais vasto e mais preocupante, proliferam os Dacostas à escala nacional, os Browns à escala universal que, com a cumplicidade de quem lhes dá espaço e tempo, desenvolvem as mais estrambólicas teorias sem que ninguém os reduza ao silêncio por omissão ou lhes dê as valentes e merecidas reguadas, ainda que virtuais. Consequência de uma sociedade que está entediada com o seu próprio tédio e onde, como diz Kundera, “tudo está perdoado e por isso cinicamente permitido”.

Estamos a precisar com urgência de uma versão actualizada do manifesto Anti-Dantas!

No imediato substitua-se o Dantas por um dos Dantas/Dacostas que por aí andam e grite-se com o Almada Negreiros:

MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
PORTUGAL QUE COM TODOS ESTES SENHORES, CONSEGUIU A CLASSIFICAÇÃO DO PAIZ MAIS ATRAZADO DA EUROPA E DE TODO OMUNDO! O PAIZ MAIS SELVAGEM DE TODAS AS ÁFRICAS! O EXILIO DOS DEGRADADOS E DOS INDIFERENTES! A AFRICA RECLUSA DOS EUROPEUS! O ENTULHO DAS DESVANTAGENS E DOS SOBEJOS! PORTUGAL INTEIRO HA-DE ABRIR OS OLHOS UM DIA – SE É QUE A SUA CEGUEIRA NÃO É INCURÁVEL E ENTÃO GRITARÁ COMMIGO, A MEU LADO, A NECESSIDADE QUE PORTUGAL TEM DE SER QUALQUER COISA DE ASSEIADO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM
!

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2 thoughts on “Intelectuais de Latrina

  1. Firmino Mendes diz:

    Tinha alguma consideração pelo profissionalismo da São José Almeida. Com este livreco passou a pertencer à pimbalhada literária que por aí vai abundando. “Silly history”. A questão do Sena já foi suficientemente debatida para se saber o que se passou com a não aceitação na Marinha e que nada tem a ver com presumível sexualidade.

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  2. Helena Pato diz:

    Mas o que terá dado à São José Almeida para se pôr a escrever sobre a vida sexual das pessoas? É que não é apenas do Sena…Será por já terem morrido que perderam o direito à intimidade? Não cesso de me surpreender!

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