Política

Futebol, Um Planeta Artificial

O futebol é um mundo estranho, de luz e sombras. Veja-se o campeonato do Mundo realizado na África do Sul e que foi um êxito organizativo para o país, superando em muito as cautelosas expectativas iniciais. Primeiro, com a capacidade da África do Sul em planificar e organizar trabalho de maneira a ter estádios e infra-estruturas concluídas a tempo. Depois, desarmando todos os riscos de violência anunciada pela comunicação social. A imagem da África do Sul foi consolidada. O reverso é o custo da fabricação e difusão dessa imagem.

Construindo o número de estádios estritamente necessário, a África do Sul tem três estádios novos, Joanesburgo, Durban e Cidade do Cabo sem clube para os utilizar. O futuro anunciado é o vazio. Como se irão rentabilizar esses equipamentos? Aos custos de construção somam-se agora os custos de manutenção para nada.

Os estádios estiveram cheios, o que não foi suficiente para evitar um prejuízo total estimado em 750 milhões de euros. A única entidade a lucrar foi a FIFA, 200 milhões de euros. Claro que há muitas infra-estruturas que eram necessárias e, por impulso do campeonato do mundo, foram executadas. Estradas, saneamento, telecomunicações, etc, que só se fariam nas próximas dezenas de anos estão agora construídas. Paralelamente, para que tudo estivesse feito dentro dos prazos, a taxa de desemprego baixou significativamente. Foram criados 70.000 empregos, desde a aprovação da candidatura até ao fim do mundial. Não se sabe quantos desses postos de trabalho se irão manter para lá desse limite.

O problema são os estádios que, num país sem grandes tradições futebolísticas, não encontram equipas dispostas a pagar o seu aluguer.

Problema que num país, Portugal, intoxicado pelo futebol continua a existir depois do Euro 2004. Por cá, construíram-se alegremente mais quatro estádios do que era exigido pelos manda-chuvas do futebol. Um desplante que custou bom dinheiro e, como é hábito no burgo, dinheiro a mais do que estava estimado. O do Algarve custou mais 25,5 milhões de euros (+ 85,5% do que o custo previsto), o de Braga mais 60 milhões de euros (+ 200%), o de Coimbra mais 42 milhões (+ 300%), o de Aveiro mais 33,6 milhões de euros (+ 109%), o de Guimarães mais 22 milhões (+137%), o de Leiria mais 43,6 milhões (+ 145%). Os custos a mais só desses estádios somam 226,7 milhões de euros. Os outros, os dos clubes ditos grandes a que se junta o Boavista, são contas de outros rosários com contribuições enormes indirectas, por via de contrapartidas para viabilizar vultuosos negócios imobiliários.

Um balúrdio a somar ao que já estava previsto. Preço bem alto para alimentar a nossa auto-estima, como dizia o eng. Sócrates, embevecido consigo próprio pela gloríola de ter iniciado a saga de pôr a bola Euro 2004 a rodar nos verdes campos do nosso Portugalito. Previa-se que dificilmente esses investimentos seriam rentabilizados, considerando a média espectadores/jogo que existe em Portugal, e quando o intervalo do custo por lugar com a lotação esgotada, para amortizar em vinte anos o que se gastou a construir os estádios, varia entre € 1.098/Guimarães e € 2.571/ Braga. Isto sem considerar os custos de manutenção que arrancam assim que os estádios ficam prontos.

O resultado está cada vez mais à vista. Os estádios de Aveiro e do Algarve são um problema para as autarquias. Agora estourou o de Leiria. A equipa local vai abandonar o estádio porque alega não poder cumprir um contrato que, aparentemente, até o favorece, tratando-se de uma estrutura, a SAD do União de Leiria, que é uma empresa, mas não é uma instituição de utilidade pública. O problema está na existência artificial de um clube que não mobiliza nem sócios nem adeptos. Os jogos do União de Leiria, no Estádio Municipal de Leiria, com a excepção do Benfica, com 22.676 espectadores/96,5% da lotação, não ultrapassaram uma média de 1280 espectadores/5,1% da lotação. Esses números, essas situações, não são muito diferentes dos registados por esse país que anda na órbita do futebol. Quando o espesso nevoeiro que envolve o mundo futebol se dissipar muitas surpresas surgirão.

Por detrás dos cenários das clubites agudas há bombas prontas a explodir. Um rastilho que um dia se acende algures no mundo do futebol. As contas apresentadas até pelos clubes mais celebrados demonstram como esse universo é artificial, apesar das transacções milionárias com jogadores. O que acontece em Inglaterra, com várias equipas, algumas de renome internacional como o Liverpool, em graves dificuldades financeiras é sintomático. O que começa a acontecer em Espanha, Barcelona a recorrer de urgência a um empréstimo de centenas de milhares de euros, Real de Madrid com um saldo negativo astronómico, deveria preocupar seriamente. Por cá, por enquanto todos bem, enquanto viramos a cara para o lado e se acha que o caso do União de Leiria é caso isolado. A bolha cresce, anda por aí pronta a estoirar. O poder político, central e local, deverá resistir às emoções que o futebol desencadeia e, prudentemente, não ir tirar castanhas desse lume onde ardem paixões descontroladas.

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