Cultura, Setúbal

Oleiros na cidade?

A cidade cresce, cresce, e, na sua ânsia de crescer, tende a expulsar as suas actividades mais antigas. Foi isso que quase aconteceu com velha “Olaria Nova”, da família Mateus, ali para as bandas dos Quatro Caminhos – com acesso a partir do nº 34 da Rua António José Baptista, antiga entrada em Setúbal.

Durante décadas a “Olaria Nova” trabalhou num local quase sem vizinhança, exceptuando-se as construções térreas junto àquela rua. Até aos anos noventa ali trabalharam sem grandes constrangimentos, produzindo belíssimas peças de artesanato, objectos de utilidade doméstica e, em maior escala, alcatruzes (artefactos destinados à captura de polvos *) vendidos para vários pontos do país.

Com o casarão da olaria sempre aberto a todos os que o procuram, aí tem sido possível ver a trabalhar os artistas das várias gerações da família Mateus – dirigida pelo patriarca Francisco – oleiros setubalenses de toda a vida que continuam a mostrar esta tão nobre, quanto antiga arte.

Em tempos ali se coziam as peças de barro num forno alimentado a lenha. Tudo num espaço comum. A pouco e pouco – mas rapidamente, se considerarmos o tempo histórico – a “Olaria Nova” viu-se no meio de um casario de habitação com vários pisos. Assim que as casas começaram a ser habitadas, começaram os problemas. Em pouco tempo a olaria deixou de poder utilizar o seu forno devido ao fumo que produzia, aliás, desde sempre. Foram até ameaçados por alguns dos recém-chegados e tiveram que abandonar o seu velho método de cozedura.

Hoje, com a mesma paciência de quem molda o barro, os oleiros lá vão resistindo à invasão urbana. Um dos membros jovens da família, Joaquim Mateus, fez as malas e montou uma nova olaria (OLACER) em Lagameças (Poceirão, Palmela), perpetuando a tradição familiar e levando consigo o exímio oleiro Manuel Ferreira. Aqueles que gostam de feiras e mostras regionais encontram-nos com frequência. E nas instalações dos Quatro Caminhos continua a ser possível ver olaria feita à beira Sado, por artistas setubalenses, mas já sem o seu velho forno a lenha…

A velha “Olaria Nova” é pois um pequeno tesouro que persiste e que merece uma visita. Um pequeno monumento mantido pelo amor a este trabalho no meio de uma cidade que, insensível, quase o queria expulsar.

* O alcatruz é uma armadilha de abrigo, com o formato de um pequeno pote de barro … A arte dos alcatruzes não causa danos a outras espécies e no caso de se perder ou partir não mata as espécies piscícolas, nem causa impacte ambiental negativo, por ser fabricado em argila. Um alcatruz esquecido ou abandonado transforma-se em abrigo para a fauna marinha, sem mais consequências. Carlos Dias. Público 24.07.2009

Advertisements
Standard

2 thoughts on “Oleiros na cidade?

  1. alvaro mateus diz:

    Pois é pena não haver interece por parte das autoridades competentes …. Estão a deixar morrer o artesanato, a olaria, e os oleiros vão acabando….Vamos, façam alguma coisa antes que seja tarde demais…………..

    Gostar

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s