Política

Pobrezinho, Sim ! Honesto, Nunca!

Ricardo Salgado, o CEO do BES, é um personagem cheio de capacidades. Uma é a facilidade com que se diz e desdiz, a outra é o seu sentido de humor, que deve fazer os gatos fedorentos roerem-se de inveja. Um exemplo da sua refinada ironia é o ter alertado o Governo para os riscos que se corriam se os prémios dos gestores fossem tributados extraordinariamente. Avisava que se iria perder muita gente boa que iria emigrar. Estamos a ver o terror que percorreu os gabinetes dos seus pares europeus, com medo de perder o emprego porque vinham aí os portugueses! Os patrões agarrados às calculadoras porque os gestores portugueses ganham mais, bastante mais, que a média dos seus colegas europeus. Um custo acrescentado que estariam dispostos a suportar para não perder a oportunidade de exibirem o seu gestor português! Salgado brandia ainda, com fervor quase comunista, com a inconstitucionalidade dessa medida. São esses momentos cómicos que nos fazem esquecer momentaneamente a crise.

Hoje, deu uma entrevista em que se diz surpreendido com o veto do executivo à compra pela Telefónica da posição da PT na Vivo, usando a golden share. Justifica mesmo que os privados, aceitando a proposta da Telefónica, estavam a defender a PT de uma eventual OPA. Afirmação que devemos atribuir ao referido sentido de humor. Retenha-se que o Ricardo Salgado, que diz ter sido apanhado completamente de surpresa, é o mesmo Ricardo Salgado que, em Nova Iorque, em 26 de Maio, afirmava que o governo português devia accionar a golden share para contrariar uma eventual OPA da Telefónica sobre a PT. Ia integrado numa comitiva de empresários portugueses que, com o ministro das finanças, foi a Wall Street promover o investimento em Portugal. Os números adiantados pela Telefónica eram outros, mas para quem diz que tudo se vende menos a honra, estamos conversados.

Ricardo Salgado é um ingrato! Tem beneficiado largamente com as dádivas com que os sucessivos governos PS/PSD/CDS o tem acarinhado. Ele, coitadinho que, em 1975 em Londres, pelo que conta o primeiro presidente da CIP, “ vivia pobre como Job, só com uma camisa, num apartamentozinho de dois quartos” despojado pelas nacionalizações e Reforma Agrária, dos imensos bens da sua poderosa família que tinha feito fortuna fabulosa associada ao nepotismo fascista, o avô era visita semanal de Salazar, está hoje à frente de um grupo económico avaliado em 7.000.000.000 euros, com apoio governamental evidente! Quem sai aos seus…

Nesse ano longínquo, tiritando de frio, pediu um empréstimo a Rockfeller, que o concedeu para iniciar um negócio na Suíça, esse paraíso bancário e fiscal, o que não deixa de ser sintomático. Como também é sintomático Rockfeller fazer um empréstimo, não se sabe de que montante, a que prazo e a que juros, a um “pobre como Job”. Não consta que banqueiros como Rockfeller andem para aí a emprestar dinheiro a pobretanas, mesmo sendo um pobre Job com apelido Espírito Santo.

Nos anos 80 volta a Portugal para, na vaga de reprivatizações, recuperar o BES e reconstituir o Grupo Espírito Santo. Em 30 anos o Grupo está presente em mais de 400 empresas, com activos avaliados em 5 % do PIB.
Dirão os babados com o empreendorismo, que esse valor se deve aos extraordinários méritos de uma gestão verdadeiramente milagrosa.

Dirão os cépticos, da direita à esquerda, que naquele período de tempo, um valor daquela ordem só se obtém com muitas cumplicidades, em particular dos governos. O tráfico de ministros, secretários de estado, directores gerais e cargos dirigentes do grupo BES é intenso. São elevadíssimos os lucros obtidos com juros usurários, taxas e serviços bancários com valor obsceno sobre o que incidem taxas de IRC diminutas. São vários os negócios em que se sacam mais-valias extraordinárias, como as obtidas com a venda de acções da Telecel, empresa de comunicações constituída com licença a custo zero, dádiva do governo Cavaco para incentivar o mercado das telecomunicações, à Vodafone, os honorários de 30 milhões de euros que entram de submarino no BES, etc, etc.  Não são poucos os negócios sob suspeita em Espanha, Brasil e EUA, para não falar dos portugueses, de que são exemplo o“Processo Furacão”, o caso “Portucale”, do “Edifício dos CTT”, em Coimbra, os “Submarinos”, a missa vai no adro. Se nem tudo o que dá lucros fantásticos é ilegal, a lei protege os ricos e os amigos, as investigações serão sempre muito complexas, com holdings em vários países e paraísos fiscais (ah! a experiência suíça!) uma intrincada e nada transparente rede de cruzamento de interesses, as deslocalização operações, etc.

Voltemos aos números: em trinta anos o grupo BES acumulou:
7.000.000.000 de euros
200.000.000 de euros em cada ano
17.000.000 em cada mês
550.000 em cada dia
24.000 em cada hora


Confuso? Complicado? Nem por isso! Passando por cima das perplexidades que a rapidez da acumulação de capital com tal dimensão pode suscitar, da maneira como se dribla a legalidade, a alegalidade ou a ilegalidade, a questão central é a da natureza do sistema que permite “sucessos” desse género.

Ricardo Salgado faz pela vida. Sabe de ginjeira, saber transmitido no biberão, que é fundamental deixaram-no fazer pela vidinha, pondo quem detém o poder a jeito para fazer o que dá jeito. Primeiro passo, passo fundamental colocar e ter “amigos” nos governos. A ligação fica directa, as decisões circulam rapidamente, as ideias trocam-se à velocidade do som, antecipa-se o que vai acontecer. Dispensam-se intermediários, foi assim com o avozinho, continua a ser assim com ele, desde o principio. Na privatização do BES, o conselho de administração do banco nacionalizado transitou quase por inteiro para o banco privatizado.

Ricardo Salgado, pobre emigrante em Inglaterra, sabe desde sempre que Pobrezinho sim! Honesto nunca! Um pobrezinho honesto, mesmo com o apelido Espírito Santo, nunca consegue acumular 7.000.000.000 em trinta anos! Um pobrezinho honesto nunca tem nem o capital nem a lei pelo seu lado!

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