Setúbal

Setúbal, a margem pobre e mal-cheirosa do Sado

Quem o diz é capitalista Belmiro de Azevedo, preocupado com o funcionamento da engrenagem que ele esperava que fizesse multiplicar o dinheiro que enterrou em Tróia. Percebe-se agora por que é que o primeiro vídeo promocional do resort de Tróia pós-Torralta omitia, ostensivamente, Setúbal e a Arrábida…

Belmiro foi à outra margem — a boa, supõe-se — dizer isto numa conferência, sem pestanejar, de uma cidade onde vivem quase 120 mil pessoas, das quais uma quantidade muito significativa deu e pode continuar a dar um contributo decisivo para a sobrevivência dos elefantes brancos que começaram a nascer nos areais de Tróia, Casino incluído, apesar de a querem afastar definitivamente de lá.

O rei dos hipermercados disse também que a Secil e a Portucel deviam fechar, a “bem do desenvolvimento da península de Tróia”. Ora aí está, a solução ao alcance da nossa mão e nós sem darmos por ela. Foi necessário Belmiro dar um pulinho a Grândola, a margem boa do Sado, para nos iluminar, a nós, setubalenses que andamos há décadas à procura da solução para o problema da Secil, sem que tal solução possa implicar coisas desagradáveis como o despedimento de umas centenas de trabalhadores, além de outras consequências sociais e económicas. Coisa pouca para o engenheiro, já se vê. Belmiro terá, certamente, na manga o projecto de reconverter todo aquele pessoal da Secil e da Portucel em operadores de caixas e repositores dos milhares de hipermercados que vai abrir, até ao fim do século, em todas as esquina de cada cidade, vila e aldeia deste país.

Perante a revolucionária proposta do engenheiro que pensa que os milhões lhe dão uma especial sabedoria, atrevo-me mesmo a ir mais longe: por que não fechar a cidade de Setúbal? Era muito mais simples. Trasladava-se os mal cheirosos para bem longe, fechava-se o resto das empresas, tudo o que fosse construção ia raso, Praça do Bocage incluida, e abria-se campo para a edificação de mais e belas torres de apartamentos do engenheiro. No lugar da Secil (o terreno já está preparado…) nasceria novo resort, a preços apenas acessíveis às bolsas equiparáveis à do homem do Norte.

Esta é a solução para que Azevedo não fique a perder. Há que ter pena do homem, que, quando aqui chegou, pensou que poderia descartar Setúbal e os setubalenses e ficar só com a Tróia. Começou agora a perceber que não era possível, em particular com gente que come sardinhas à bruta com as mãos e cheira mal. Se não é possível, então que se feche as empresas. A rapaziada, desempregada, vai embora; os serviços e o comércio, sem clientela, fecham; além disso, o Jumbo é da Auchan e não da Sonae, por isso, olha, que se lixe…

Eu bem queria tratar este assunto de forma séria, mas não deu. O que Belmiro disse, a crer no que escreve o “Setúbal na Rede”, é demasiado rasca e obsceno para que se trate este personagem de forma séria. Não merece qualquer respeito quem trata assim toda uma população, toda uma cidade que já contribuiu mais para a história e economia de Portugal do que alguma vez o engenheiro contribuirá.

Por mim, o que devia fechar era o empreendimento turístico de Troia, que deveria ser transformado numa estância balnear aberta a toda a população, a preços sociais, livre de todos os Belmiros deste país.

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2 thoughts on “Setúbal, a margem pobre e mal-cheirosa do Sado

  1. Pingback: A discoteca da Helga e os barcos para a Tróia « Praça do Bocage

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