Nunca como nos tempos mais recentes se viu tanta publicidade de empresas que se propõem comprar ouro a particulares. Às tradicionais ourivesarias que desempenham esta função, juntam-se agora os gabinetes e as salas que abrem portas por horas ou dias para receber todos aqueles que, quase sempre em desespero, procuram “fazer” algum dinheiro. Alguns desses compradores de ouro deslocam-se mesmo do estrangeiro por curtos períodos.
De norte a sul do país, Setúbal não é excepção. É bem o sinal dos tempos. O resultado de mais desemprego, mais trabalho precário, mais desintegração familiar e social ou tão só azar.
Esses locais eram, em tempos idos, conhecidos por quem deles precisava. Quase sempre resguardados e sem grande visibilidade pública, dispensando publicidade ou recorrendo apenas a pequenos anúncios nas páginas de publicidade da imprensa. Hoje não. Publicidade bem visível e com suficiente impacto nas cidades para nos apercebermos da dimensão que a coisa tomou. Uma ostentação publicitária que quase chega a ser chocante por aquilo que, não dizendo, evoca: “vão-se os anéis fiquem os dedos”.
Estão também de volta os tempos do “prego” ou dos “penhores”, prática que nunca desapareceu e que nos vem recordar o Portugal mais pobre e miserável de outras épocas. Quando o crédito bancário não tinha ainda entrado “em grande” na vida dos portugueses. Contra a entrega de objectos pessoais com algum valor, a casa de penhores entrega uma verba. Mediante o pagamento do dinheiro emprestado e um juro, o bem pode ser recuperado. Hoje como ontem o ouro, as jóias e outros bens pessoais são o refúgio antes do desespero e da falência financeira pessoal.
A caça ao ouro mostra em que grau a crise atingiu os portugueses. É um sinal de crescente e continuado empobrecimento.