A árdua construção da imagem de um papa culto tem marcado o pontificado de Bento XVI e é bem visível essa preocupação nos acólitos do Vaticano. Percebe-se a intenção. O cardeal Ratzinger, durante anos à frente da Sagrada Congregação da Doutrina da Fé, instituição nuclear da Santa Sé, é personalidade que se distinguiu e distingue por defender o fundamentalismo da igreja, por ser ardente defensor da moral e dos dogmas católicos, por impor ou tentar impor voto de silêncio aos teólogos progressistas, por ser adepto das grandes procissões e cerimónias pomposas.
Quando eclodiram os escândalos da pedofilia, ficou-se a saber que já quando era arcebispo de Munique e Freising tinha encoberto vários casos, o que continuou a fazer enquanto detentor de altos cargos no Vaticano. Agora, quando é impossível continuar a varrer para debaixo dos espessos e abençoados tapetes que abundam na eclesia, vem com voz sussurrante e ar sonso falar da ” profunda necessidade de reaprender a penitência, de aceitar a purificação, implorar perdão” e pede aos católicos para “não se assumirem como juízes dos que cometem pecados”. Nada de sanções laicas ou religiosas contra abusadores e encobridores. A procissão ainda vai no adro, o instinto de sobrevivência da igreja é enorme, veremos como tudo isto acaba.
Neste quadro era e é urgente mostrar outra face do papa, nada melhor que envernizá-la com camadas de cultura. Citam-se os vários livros de Teologia que escreveu onde, entre outras coisas, defende que a “sexualidade é uma emanação do amor divino”. Mais incisiva é a nota romântica: o papa toca piano, fala francês e outras línguas. Uns dizem que os seus compositores favoritos são Mozart e Bach, outros que são Mozart e Schubert, talvez não percebam bem quem o papa prefere, espere-se é que essas indecisões não sejam derivadas das interpretações do Sumo Pontífice.
Na continuidade da construção dessa imagem cultural, dia 12, no Centro Cultural de Belém, está marcado um encontro com nomes da cultura nacional. Esperam-se discursos de circunstância dos muitos que aceitaram o convite, recusado por intelectuais tão distantes no campo ideológico e religioso com o José Saramago, Vasco Graça Moura ou José Cutileiro.
Na oportunidade, será oferecida ao papa uma jóia desenhada por Siza Vieira. A questão que se coloca não é menor. Porque encomendar esse objecto, a ideia era uma medalha, a Siza Vieira? Só há uma explicação: é a lógica do star-system! A lógica que, com epicentro em Holywood, se estendeu às áreas da cultura, das artes e mesmo da ciência, enquanto o mercado alargava a sua rede. Lamentável é que o arquitecto tenha alinhado nisso, talvez por já não se conseguir aperceber dos seus próprios limites. O objecto é um ovo em prata que se abre pelo meridiano para deixar ver uma mal enjorcada pomba em porcelana. Provavelmente Siza lembrou-se dos ovos que o ourives russo Fabergé fabricava para os czares e que hoje atingem preços brutais no mercado. Não é isso que os salva de uma luxuosa banalidade kitch, como o ovo do Siza é de uma minimal banalidade kitch.
Ninguém se lembrou, o arquitecto deveria ter sido o primeiro, que nas Faculdades de Belas-Artes há vários escultores, consagrados ou em princípio de carreira, que se dedicam à medalhística e que, certamente, teriam produzido algo bem melhor que o mestre arquitecto. Um concurso nacional poderia ter revelado um jovem escultor ou confirmado um de créditos já firmados. Ter-se-ia estimulado a imaginação dos nossos artistas e não se teria perdido tempo nem gasto dinheiro num objecto em que o que é mais significativo é a assinatura do seu autor. Não teríamos, mais uma vez naufragado no star-system!
Até se compreende o facto de terem escolhido Siza Vieira para a elaboração desse objecto de homenagem, ora vendo bem, o sumo pontífice é uma figura de renome e destaque a nível mundial, e Portugal querendo equiparar a grandeza dos seus com a plenitude dos de fora, neste caso o papa, não encontra ninguém melhor e com tanta relevância a nível internacional do que o próprio Siza Vieira, é certo que existem outras personalidades portuguesas capazes de engrandecer uma homenagem mais profunda ao papa, como Paula Rego, porém mais complicada de invitar do que Siza Vieira, e tendo em conta que as outras figuras de importância internacional do nosso país são apenas nomes relacionados com futebol, ou de outras actividades mais superficiais da sociedade, a escolha de Siza Vieira é até compreensível, não é a mais acertada e prudente, mas é compreensível.
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