A discoteca da Helga e os barcos para a Tróia

Os preços e os horários dos transportes fluviais para a península de Tróia, assegurados pelos ferrys e catamarans da Atlantic Ferries, empresa do universo empresarial Sonae, têm sido motivo de variadas discussões e tomadas de posição de pessoas e entidades preocupadas com a degradação do serviço público que aquele meio de transporte deve assegurar.

Os horários em vigor desde 1 de julho referem a realização de 25 viagens por dia para cada lado nos ferries, mais uma aos fins de semana. Entre abril e junho apenas se realizaram 12 viagens diárias entre cada margem, quando antes eram trinta os percursos efectuados.

A acentuada redução do número de carreiras dos ferries corresponde, nos meses de verão, a uma redução de 48 por cento em relação ao número de viagens que a antiga concessionária, a Transado, efectuava. Se a comparação entre o número de carreiras efectuado pelas duas empresas incidir nos horários praticados pela Atlantic Ferries entre abril e junho, a redução registada foi de sessenta por cento em relação ao número de viagens feitas pelas embarcações de transporte de viaturas da antiga concessionária.

A redução constante do número de viagens entre cada margem não foi, contudo, acompanhada de uma redução do preço dos bilhetes, que custam hoje dois euros por pessoa e por percurso e 9,60 euros para uma viatura com o condutor. Se pegarmos no lápis e fizermos as contas, facilmente se conclui que uma família de quatro pessoas, em que as crianças tenham mais de dez anos, paga 16 euros por dia para ir à Tróia. Se se quiser passar para a outra margem com viatura e voltar, o preço a pagar por uma família de quatro pessoas ascende, então, a 31,20 euros (9,60 x 2 da viatura e do condutor mais 12 euros de três passageiros). Se o condutor optar, ajuizadamente, diga-se, por ir pela auto-estrada, então terá de pagar 8,10 em portagens no percurso Setúbal-Alcácer-Setúbal e em combustível cerca de 20 euros para os 106 quilómetros de percurso, ou seja, a festa fica em 28,10 euros, menos 3,10 euros do que a viagem de barco. Se optar por ir pela estrada nacional, ainda mais barato fica…

É certo que esta questão está mais do que discutida, os protestos mantém-se e as populações continuam a ser prejudicadas por estes horários e tarifas exorbitantes, com forte impacto na actividade económica, em particular a das populações da margem sul do Sado.

Face aos protestos que se têm feito ouvir, a Atlantic Ferries faz ouvidos de mercador e insinua, sem o afirmar, que os prejuízos decorrentes da actividade da empresa são de tal monta que o melhor seria fechar. A APSS, entidade que concessiona o transporte de passageiros e de viaturas, tem feito tudo para que ninguém repare nela e e cala-se bem calada, quando seria de esperar que já tivesse tomado posição sobre a matéria, em defesa dos interesses das populações da região.

Tudo isto é extraordinário. Mas mais extraordinário é descobrir-se que, afinal, a empresa decidiu estender o horário de funcionamento dos barcos, não por causa dos protestos, não por causa do interesse público, não por causa das necessidades das populações, não por causa dos setubalenses que sempre fizeram de Tróia o seu local de eleição. Não. Nada disso…

A Atlantic Ferries vai estender o funcionamento dos barcos durante toda a noite no período de Verão porque, fica-se a saber pela revista “Nova Gente” de 19 de julho, o novo projecto de Helga Barroso — a senhora que é sócia daquele notável empresário da hotelaria que se chama Luis Evaristo e que abre uns espaços de dança no algarve no período estival com nomes esquisitos e muita cobertura mediática paga a peso de ouro — já está em funcionamento num dos espaços do Troia Resort e, por isso, é preciso transportar fora de horas os foliões da margem boa para a margem mal cheirosa do Sado.

Mas desenganem-se aqueles que pensam que tanta generosidade é para manter. Nem pensem nisso. A brincadeira deve acabar a 25 de Setembro, data em que fecha o Luv, o tal espaço da notável Helga Barroso. Depois disso, quem quiser que vá dar a volta por Alcácer, que a vida está cara e a Atlantic Ferries não é a Santa Casa…

Mais uma vez fica demonstrado que serviço e interesse públicos são coisas para os outros, mas não para a Sonae. Quando se trata de favorecer os interesses privados do dono do resort, aumentam-se a frequência das carreiras, nem que isso dê prejuízo. Quando o que está em causa são os interesses das populações da região, nem pensar em aumentar a frequência das carreiras, porque a Atlantic é uma empresa privada e não anda cá para perder dinheiro, ideia com que a APSS até parece estar de acordo. Enfim, será assim agora, porque com a Transado parece que o rigor nas exigências era outro, em particular no que diz respeito aos horários.

Ao que isto chegou…

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