As décadas de oitenta e noventa do Século XX em imagens

Ao inaugurar aqui a série das Portas da Praça, na qual tenho vindo a reproduzir imagens atuais de portas da Praça do Bocage, tentando também recuperar imagens mais antigas que enquadrem o que foram noutros tempos alguns dos edifícios retratados, constatei que é fácil encontrar muitas fotografias da cidade tiradas até à década de oitenta do século XX, fruto do incansável labor do fotógrafo setubalense Américo Ribeiro que, como ninguém, fez, durante mais de cinquenta anos a crónica fotográfica de Setúbal. Constatei, também, que na Internet é muito difícil encontrar imagens mais recentes da cidade , em particular da década de oitenta e princípio de noventa. Seria bastante interessante tê-las disponíveis, pois ocorreram, entretanto, muitas mudanças da cidade. Não consegui encontrar, por exemplo, fotografias do Café Central, do Café Brasileira ou do Café Reno, na Praça do Bocage, antes de serem transformados em Pizza Hut, loja de colchões e um banco. Mas há muitas outras imagens de espaços de convivência e urbanos na cidade que não se encontram, mas que, certamente, existem em arquivos pessoais. Lembro-me, por exemplo, dos dois mais conhecidos cafés da Avenida 5 de Outubro, o Tamar e o Benjamim, que foram espaços de grande convívio e dois quais hoje apenas resta a memória dos frequentadores.

Para enriquecer o espólio fotográfico público da cidade, deixo pois aqui o convite a quem tenha imagens da cidade nas décadas de oitenta e noventa do século XX, em particular de espaços que tenham entretanto sido transformados ou tiveram o seu uso alterado, para que as envie para setubal.fotos.oitenta@outlook.pt, com autorização expressa para publicação no blogue Praça do Bocage, com indicação do proprietário/autor da foto e ainda indicação do ano em que foi tirada e do local.

Eu agradeço e a cidade fica com mais memória.

 

SPLEEN

Quand le ciel bas et lourd pèse comme un couvercle
Sur l’esprit gémissant en proie aux longs ennuis,
Et que de l’horizon embrassant tout le cercle
II nous verse un jour noir plus triste que les nuits;

Quand la terre est changée en un cachot humide,
Où l’Espérance, comme une chauve-souris,
S’en va battant les murs de son aile timide
Et se cognant la tête à des plafonds pourris;

Quand la pluie étalant ses immenses traînées
D’une vaste prison imite les barreaux,
Et qu’un peuple muet d’infâmes araignées
Vient tendre ses filets au fond de nos cerveaux,

Des cloches tout à coup sautent avec furie
Et lancent vers le ciel un affreux hurlement,
Ainsi que des esprits errants et sans patrie
Qui se mettent à geindre opiniâtrement.

Et de longs corbillards, sans tambours ni musique,
Défilent lentement dans mon âme; l’Espoir,
Vaincu, pleure, et l’Angoisse atroce, despotique,
Sur mon crâne incliné plante son drapeau noir.

Quando o cinzento céu, como pesada tampa, 
Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta, 
E a sua fria cor sobre a terra se estampa, 
O dia transformado em noite pardacenta; 

Quando se muda a terra em húmida enxovia 
D’onde a Esperança, qual morcego espavorido, 
Foge, roçando ao muro a sua asa sombria, 
Com a cabeça a dar no tecto apodrecido; 

Quando a chuva, caindo a cântaros, parece 
D’uma prisão enorme os sinistros varões, 
E em nossa mente em frebre a aranha fia e tece, 
Com paciente labor, fantásticas visões, 

- Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes, 
Lançando para os céus um brado furibundo, 
Como os doridos ais de espíritos errantes 
Que a chorar e a carpir se arrastam pelo mundo; 


Soturnos funerais deslizam tristemente 
Em minh’alma sombria. A sucumbida Esp’rança, 
Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente, 
Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança! 

Charles Baudelaire, in “As Flores do Mal” 
Tradução de Delfim Guimarães

Portas da Praça | N.º 53

IMG_20141202_093714A publicidade afixada na porta N.º 53 da Praça do Bocage não permite, de forma alguma, adivinhar o antigo uso que era dado ao que lá está dentro. Aqui funcionou, até ao fim  da década de noventa (ou talvez mesmo até mais tarde) um dos mais emblemáticos cafés de Setúbal, a Brasileira, café à antiga, com serviço de esplanada e fumarento salão de bilhares onde muitos setubalenses aprenderam a dar ao taco entre uma bica-bagaço ou duas minis.

Era, com o Reno e o Café Central, onde hoje funciona a Pizza Hut, um dos mais importantes pólos de atração da praça, nos tempos em que os cafés abriam até à meia-noite. Rivalizava com mais dois grandes cafés da baixa, estes na Avenida 5 de Outubro, o Tamar, espaço intensamente frequentado até ao seu encerramento para dar lugar a um banco na década de noventa, e o Benjamim, um pouco mais à frente, no enorme quarteirão que se segue à estação rodoviária, ou, como se chamava naqueles tempos, aos Belos.

 

 

A Persistência da Cassete

acasseteFrancisco Seixas da Costa mantém um blogue, genérico nos temas que versa, que se lê com interesse.

Cruzamo-nos algumas vezes. Amigos meus, muito próximos, alguns desaparecidos, entre outros Bartolomeu Cid dos Santos, Fernanda Paixão dos Santos, Pedro Pedreira, incluem-se na sua vastíssima roda de amizades.

Frequento, com bastante irregularidade, o seu blogue em acordo variável com as opiniões que emite. Em franco desacordo com o que escreve quando se refere ao meu partido, o Partido Comunista Português, onde somos todos desumanos no dizer de um dos seus seguidores, o que não mereceu contradita do autor do “post” pelo que, com propriedade, deduzo que considera ajustado tal epíteto, em linha com o conteúdo do texto que provocou a dita observação. Um “post” em que a pretexto da morte de Francisco Canais Rocha, declara: “Nunca na minha vida consegui condenar alguém que, sob tortura, tivesse “falado”. Sei lá como me portaria se tivesse de suportar idênticas circunstâncias! Tenho amigos que “falaram” e outros que “não falaram” na cadeia. Não tenho menor ou mais apreço por eles, por essa razão. Acho assim miserável que o PCP nunca tivesse reabilitado este seu antigo militante. Um partido também se mede pela sua humanidade.”

Também eu nunca condenei ninguém por ter “falado” na cadeia. Quem está submetido a selváticas torturas só se estiver disposto a morrer as pode suportar até ao extremo limite. São muitos os camaradas que heroicamente ultrapassaram as violências inomináveis a que foram sujeitos. Sem essa determinação, num exemplo abstracto mas real, quem suporte a ferocidade de dez dias de tortura de sono, estátua, agressões físicas e psicológicas, chegue ao fim desse tempo resistindo, até aos verdugos desistirem, fica sem saber se na hora seguinte, na meia hora seguinte, no quarto de hora seguinte, a sua resistência não seria quebrada. Iria, numa fracção de segundo, do Capitólio para a Rocha Trapeia. Por isso, nunca condenei ninguém que “falou”, para usar a gíria em uso. Os limites da resistência humana são infinitos mas sempre desconhecidos. Honra para quem, em nenhuma circunstância, falou ou falaria, por terem a determinação que referi.

Esclarecido este ponto considero que Seixas da Costa deveria cuidar melhor do que afirma. São muitos os militantes do PCP que “falaram” e que, depois do 25 de Abril, voltaram a militar activamente no seu Partido. São muitos os militantes do PCP que “falaram”, e estão hoje no PCP, de militantes de base a dirigentes, mesmo no Comité Central, ou que foram deputados tanto na Assembleia da República como no Parlamento Europeu. São hoje bastante menos do que foram depois do 25 de Abril. Menos, unicamente pela lei da vida. Estas evidências arrasam a acusação de o PCP ter “ausência de humanidade”. O PCP diferencia-se de outros partidos onde o rancor mesquinho, de alguns dos seus mais altos dirigentes, atira à mínima divergência sem hesitações para o inferno alguns dos seus companheiros, mesmo os mais próximos, até íntimos. Seixas da Costa deveria informar-se melhor antes de incorrer em erros e emitir juízos que põem em causa a sua credibilidade.

Ao ler outros “posts” poderemos concluir que há um objectivo, mais geral. O de demonstrar, por fás e nefas, a impossibilidade de um acordo de esquerda por culpa do PCP.

Num “post” mais recente, a pretexto de um artigo do Avante! sobre a queda do Muro de Berlim, é delicioso assistir ao alinhamento do texto que vai de um paternalismo à beira da abjecção que embrulha em ternura por uns supostos saudosos de um passado próximo e por um “ PCP (que é) hoje um museu de si próprio, que deve ser conservado com todo o cuidado que sempre deve ser concedido às espécies em extinção” para concluir “que (é) um partido a quem tenho, como muitos portugueses, uma eterna dívida de gratidão pela sua inigualável e sacrificada luta para derrubar a ditadura”. Continuar a ler

Estranhos tempos…

Soares e o seu amigo Carlucci, embaixador americano em Portugal e agente da CIA.

Estranhos tempos estes em que tudo se esquece e, em nome sabe-se lá de que amanhãs que cantam, se glorifica quem, no passado, tanto se esforçou por impedir o avanço da transformação revolucionária portuguesa fazendo, aqui e acolá, alianças com os outrora aliados internacionais do fascismo ou trazendo de volta os velhos banqueiros do regime que, mais tarde ou mais cedo, haveriam de torrar tudo, porque a ganância é muita.

O que mais dói é que a glorificação seja feita também em alguma blogoesfera de boa gente que às vezes se distrai…

Portas da Praça | S/N.º

IMG_20141202_093838_edit_editUma das portas mais importantes da Praça. Aqui mora o poder local, ou melhor, por aqui se entra nos Paços do Concelho de Setúbal, embora seja mais fácil, e comum, dizer que esta é a porta da Câmara.

O edifício dos Paços do Concelho de Setúbal, a mais notável construção edificada na Praça do Bocage, sofreu, nos quase cinco séculos de existência na localização onde ainda hoje se encontra, variadíssimos danos. Os fenómenos da natureza são os principais causadores da degradação do edifício ao longo de centenas de anos, mas a acção humana, como recorda Maria Conceição Quintas na sua Monografia da Freguesia de São Julião, teve também um papel preponderante, em particular na fase mais recente do edifício.