UCRANIA:INFORMAÇÃO/CONTRA-INFORMAÇÃO

ucraniaA informação e a contra-informação correm à desfilada na Ucrânia. Poucas coisas são certas. Muitas podem-se decifrar das declarações que são feitas pêlos intervenientes ocidentais e ucranianos. Muita dessa informação adquire, porque não interessa, pouca relevância nos meios de comunicação social.

1-    Um comunicado da equipa de inspectores da OSCE, chefiada pelo dinamarquês Kai Wittop, em Lugansk, cidade recuperada pelas forças ucranianas, depois de visitar as zonas bombardeadas pela artilharia e pelos aviões governamentais ou a soldo do governo ucraniano (*), concluiu que as zonas bombardeadas eram zonas onde não existiam instalações nem dispositivos militares dos separatistas, mesmo móveis. Recolheu informações que os levam a calcular que os bombardeamentos fizeram 250 vítimas civis mortais e 700 feridos. Isto confirma as denúncias dos separatistas e desmente a propaganda oficial, o que explica o pouco relevo que é dado.

2-    Lembre-se um inquérito imparcial e independente na altura muito reclamado, subitamente  atirado para o caixote do lixo. Quando das manifestações da Praça Maidan, a polícia do então governio de  Yanukovych foram acusadas de ter atiradores furtivos a disparar sobre os manifestantes.

Que se faça um inquérito pedia-se em grande grita, com ecos nas chancelarias ocidentais. De repente o silêncio. Não deve ser estranho a esse silêncio a conversa entre o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Estónia, Urmas Paet, e o Alto Representante da União Europeia para os Assuntos Exteriores e a Política de Segurança, Lady Catherine Ashton em que o primeiro, que tinha estado na Praça Maidan a dar apoio aos manifestantes, revelava à segunda que os atiradores furtivos pertenciam aos grupos de extrema-direita dos manifestantes. Tanto disparavam sobre a polícia como sobre os manifestantes. A exigência de inquérito e o inquérito foram rapidamente para o lixo. Nada como confiar no esquecimento e na falta de memória.

3-    Os separatistas pró-russos eram acusados de terem accionado o míssil que supostamente abateu o avião da Malasya Airways. Agora é o chefe dos Serviços Secretos Ucranianos, Valentyn Nalyvaychenko, depois de ter repetidamente, em linha com os governantes ucranianos, defendido essa tese veio esclarecer que isso não seria possível porque eles não teriam nem treino nem habilitações militares para tal. Tinham sido militares russos. No dia anterior tinha dito, ele e o inefável primeiro-ministro Arseni Iatseniuk que os russos tinham fornecido sistemas Buk aos separatistas pró-russos. Agora, quando veio com essa nova teoria nenhum dos jornalistas presentes se lembrou de perguntar para que é que os russos entregavam e para que é que os separatistas queriam um sistema que não lhes servia para nada.

Esse senhor que diz terem sido militares russos, é o mesmo senhor que, dias antes,sempre  em linha com os governantes ucranianos, revelou conversas gravadas supostamente entre separatistas e militares russos sobre o abate do avião, provando terem sido os separatistas os responsáveis pelo seu abate. Gravações que a metadata da gravação demonstrou serem falsas por terem sido feitas um dia depois da queda do avião. Nos meios de comunicação social ocidentais isto também teve pouco ou nenhuma importância em nome da verdade jornalística e dos critérios editoriais. Depois das gravações ele promete fotos, vídeos sabe-se lá mais o quê. Claro que tudo muito sério e veraz dados os antecedentes.

4-    A nova teoria trazia água no bico. John Kerry, depois de dias em que Obama e ele próprio afirmavam ter informações fiáveis de que o disparo do míssil tinha partido de território ocupado pelos separatistas avançou com a teoria de que o disparo foi feito por militares russos que tinham atravessado a fronteira e retornado à Rússia. Completava assim a informação do chefe dos serviços secretos ucranianos. O que se estranha é que John Kerry ainda não tenha mostrado fotos comprovativas da sua teoria. Colin Powell foi mais rápido e eficaz quando desdobrou no Conselho de Segurança da ONU, inúmeras fotografias que demonstravam inequivocamente a existência de fábricas de armas de destruição maciça no Iraque que nunca existiram, como se veio a provar. Será que a Secretaria de Estado dos EUA, mais os vários serviços secretos norte-americanos estão a perder qualidades? O alçado principal de John Kerry não denuncia uma inteligência por aí  além, mas ficamos inquietos com estes atrasos. Só conversa? Só conversa e nada de provas? Pergunte ao Colin Powell como se fabricam! Podia marcar uma nova cimeira nos Açores com o Cameron e o Rajoy, Passos e Portas fardados de motoristas e porteiros! A história repetia-se, a farsa continuava com novos protagonistas. A representação seria cada vez mais medíocre.

5-    Foram os separatistas pró-russos repetidamente acusados de não darem acesso ao lugar onde os destroços estão dispersos. Os separatistas garantiram que cumpririam um cessar-fogo de quatro dias para a missão internacional se deslocar ao local. Agora sabe-se que o cessar-fogo nunca foi aceite por Petro Poroshenko que diz não negociar com “terroristas”.

Os inspectores da OSCE falam cuidadosamente numa zona insegura, de onde se ouvem tiroteios constantes. Esquecem-se de falar da não aceitação da trégua pelo governo ucraniano.

Ontem e hoje há combates que se estão travar nas imediações da estação de caminho de ferro de Thorez, onde estão os vagões frigoríficos com os corpos dos malogrados viajantes do voo MH17. Nas proximidades do local da queda do Boeing, entre a colina de Saur-Mogila e o posto fronteiriço de Marinovka, continuam intensos combates. Ouvem-se novamente explosões de projécteis de artilharia.

O cúmulo do cinismo é o governo ucraniano dizer que os combates não são entre tropas governamentais que atacam os separatistas, mas entre os batalhões de voluntários, leia-se grupos armados de extrema-direita e mercenários da Blackwater que combatem integrados no exército da Ucrânia e agora estão aí estão a combater os “terroristas”.

6-    Obama e companhia, obviamente na primeira linha os seus mandaretes de Kiev, acusam antes de qualquer prova. Cameron mostra os dentes. Merkel e a Europa do Norte são mais moderados, embora afinem pelo mesmo diapasão.

Israel aproveita o ruído mediático para matar sem dó nem piedade os palestinianos de Gaza.

O dólar range com a possibilidade real de acabar por valer tanto como as notas do jogo do monopólio, depois do encontro dos BRICS, Brasil, Rússia, India, China e União Sul-Africana, que decidiram fundar um Banco de Desenvolvimento para apoiar países emergentes e substituir, entre si e com os países com que fazem comércio, o dólar por uma moeda que volta a ter por padrão o ouro.

7-    Nesta crise, como nos inquéritos e nos romances policiais, duas coisas a não esquecer:

a)    Quem é beneficiado com a queda do avião da Malasya Airways?

b)   Será que os EUA, segundo a voz autorizada de Victoria “que se foda a europa” Nuland, investiram cinco mil milhões de dólares na destabilização da Ucrânia e vão ficar sem retorno?

 

(*) as tropas que lutam contra os separatistas pró-russos são constituídas por tropas governamentais ucranianas, exército regular e tropas de elite, batalhões armados da extrema-direita e mercenários da Academi, contratados por oligarcas ucranianos. A Academi (antiga Blackwater) é uma empresa de mercenários com sede em Moyock na Carolina do Norte, Estados Unidos e contas nas Ilhas Caimão. É formada por vários tipos de paramilitares, por ex-integrantes dos Seals e outras chamadas forças de elite. A companhia fornece mercenários e vários outros serviços paramilitares. Foi fundada em 1996 por Erik Prince, que em Agosto de 2009, em depoimentos sob juramento de ex-funcionários, foi acusado de assassinar ou facilitar o assassinato de indivíduos que vinham colaborando com as autoridades federais americanas que investigam o envolvimento da Companhia em vários escândalos. A Blackwater está actuando como força auxiliar (e de segurança) no Iraque e Afeganistão, e está envolvida em várias controvérsias e investigações. Faz os trabalhos mais sujos para a CIA, nomeadamente na América Centro e Sul.

CPLP, o longo caminho da Cooperação

Julho é mês de efemérides relacionadas com a Cooperação acordada entre os Povos para o seu mútuo benefício, Progresso e Desenvolvimento.

A Declaração Constitutiva da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é datada de 17 de Julho de 1996, mas já do antecedente se comemorava, a 6 desse mesmo mês, o Dia Mundial da Cooperação.

Na CPLP, a um ritmo que todos desejariam ser mais rápido, a Cooperação vai fazendo o seu caminho, não só nos sectores comercial, económico e financeiro, mas também no social – educação e saúde – aquele em que participamos e por isso mais nos interessa.

A frequência e periodicidade com que se tem verificado a realização de conferências, consultas, seminários e outros encontros, nos quais participam altos responsáveis dos países membros da CPLP, diz bem da sua sentida necessidade e da importância que revestem os temas de cooperação analisados e discutidos em tais areópagos.

Dentre os assuntos recorrentemente tratados avultam a cooperação entre os países da Comunidade e as conclusões incluem, de modo quase uniforme, questões temáticas fixando áreas de colaboração e de entreajuda e questões de metodologia a seguir.

O tema Recursos Humanos tem estado e permanece na ordem do dia em vista do crescimento e desenvolvimento económico e social que se verifica já, ou se pressente vir a eclodir em breve, na maioria dos países da CPLP, em alguns deles de modo acelerado.

No campo da saúde a acuidade do problema da carência de recursos humanos (RHS) é ainda maior, ou mais sentida, e a necessidade de garantir a prestação de cuidados de saúde às sociedades em transformação mais ou menos rápida, conduz directamente à necessidade de porfiar pela auto-suficiência em técnicos do sector clínico, fixados e inseridos nas comunidades, prestando valioso contributo no sentido do seu desenvolvimento e progresso.

O dilema actual desses países, que se pode sintetizar na alternativa entre não terem técnicos porque os não formam ou formá-los no exterior e perdê-los, carece de ser resolvido. Continuar a ler

Um livro de vez em quando

 

 

anoiterodaNoite na terra. Nunca é noite na terra porque a noite roda. Mas é noite na terra quando duas pessoas estão coladas uma à outra. Só nós estamos vivos, somos a Arca de Noé.”

O que acontece ao amor quando irrompe por num cenário de conflito, objecto de reportagem jornalística? O que acontece ao trabalho jornalístico quando é invadido pela paixão? No romance, a cronologia é subvertida pela geografia dos lugares por onde, Ana e Leon, protagonistas da história de amor narrada por Ana, transitam por urgências e exigências profissionais. O cenário é Israel e Palestina. O sucesso a morte de Arafat, as ressonâncias antes e depois.

Nessa geografia real, os mapas da paixão vive de encontros de intenso enamoramento erótico e de desencontros em que as distâncias são preenchidas por sms e e-mails, discurso amoroso da era digital. As cartas de amor são ridículas ou não seriam cartas de amor, escreveu Pessoa. Os e-mails e sms não escapam à vulgaridade. “Isto está mesmo a acontecer-me? Um folhetim de cordel, uma opereta” (…) “A realidade é sempre má ficção” regista com violência Ana. Sabemos, logo na primeira página do romance, que a paixão entre Ana Blau, jornalista catalã, sem relacionamento conhecido e Leon Lannone, também jornalista, belga, casado, com três filhos, família a viver em Bruxelas tinha chegado a seu termo. “Escrevo para acabar com a história, escrevo para que a história comece”, Leon tinha desaparecido há quatro anos. A história persiste para lá desse desaparecimento. A história procura fazer sobreviver a história de amor entre reportagens, narrativas de viagens, sms e e-mails com canções de Brel, Sigur Rós, Leo Ferré, versos de Elliot, Kavafis, citações do Gilgamesh, Lawrence Durrell, Dylan Thomas. Ver Saraband de Bergmann, ouvir um concerto dirigido por Barenboim em Ramallah, com a sua orquestra de jovens israelitas e palestinianos. Um arquipélago de referências.

Um belíssimo romance de amor, onde duas geografias, a real e a da paixão, obstinadamente se cruzam. Onde nos reconhecemos em fragmentos, neste ou naquele incidente do trânsito amoroso, como se o tivéssemos vivido num outro ponto do mapa.

“Há sempre qualquer coisa que está a acontecer. qualquer coisa que eu deva resolver, eu não meti o barco ao mar para ficar pelo caminho. porquê não sei, mas sei que essa coisa é que é linda.”

 

_publicado no Guia de Eventos de Setúbal/ Julho-Agosto 2014

Gaza: Violência sobre o gueto

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O holocausto do povo judeu durante a segunda guerra mundial serve frequentemente para justificar e fazer esquecer o tratamento brutal que o poder israelita tem infligido aos palestinianos. É certo que os contornos do conflito são complexos, mas é também certo que Israel exerce sempre o seu poder com toda a brutalidade e desproporção.

Quantos mortos se contam em cada lado? Ouvi ontem na televisão sobre o primeiro habitante israelita atingido mortalmente. Enquanto isso contam-se por centenas as baixas de civis em Gaza. E como não nos compungirmos com esse espectáculo deprimente de habitantes de Israel a assistirem aos bombardeamentos e ao morticínio dos seus vizinhos, instalados como que numa frisa de teatro?

Sob a acusação de ser liderado por um grupo terrorista (embora o Hamas tenha sido escolhido em eleições!), o território palestiniano de Gaza (360 Km2 e 1,6 milhões de habitantes) foi isolado, selado e os seus habitantes sujeitos à clausura de um gueto. Um território fechado e controlado no mar e no ar, à disposição da mais completa tecnologia militar. Uma indignidade.

Sucederam-se raptos, primeiro de jovens israelitas, brutalmente executados, e depois de um jovem palestiniano, também barbaramente assassinado. Mas o que fez com que os alarmes israelitas soassem a debitar todos os decibéis foi o recente anúncio da reconciliação entre as principais facções palestinas – a Fatah que administra a Cisjordânia com o Hamas que governa Gaza. Durante anos a divisão entre palestinianos tem sido a melhor garantia para os interesses sionistas que se opõem à constituição de um Estado Palestiniano já reconhecido pela maioria das nações.

O conflito entre o Estado de Israel e os palestinianos é uma guerra entre capacidades desproporcionadas. Certos das suas razões – reconhecidas por resoluções das Nações Unidas – mas confrontados com a impotência dessas mesmas resoluções, como podem os palestinianos combater uma potência militar com as capacidades do Estado de Israel, senão da forma que o tem feito, provocando danos mínimos, quase sempre materiais e raramente humanos?

No passado os palestinianos recorreram a actos terroristas que, bem e mal, colocaram o problema sob observação da comunidade internacional a partir dos anos de 1970 pela mão da OLP de Arafat. Não fosse a violência do terrorismo uma outra forma de fazer política face a poderes militares esmagadores.

Com a presente complexidade que se vive na região – os conflitos na Síria, no Iraque, no Egipto – o cenário do conflito israelo-palestiniano tornou-se ainda mais negro…

O grande circo do banco espírito santo

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É isso mesmo que reprovo.
Não há nada mais imoral do que roubar sem riscos.
É o risco que nos diferencia dos banqueiros
e seus émulos que praticam o roubo legalizado
com a cobertura dos governos.
Albert Cossery in As Cores da Infâmia
-edições Antígona, ano 2000
BES

1-O CIRCO POLÍTICO

Passos Coelho diz com o ar solene do costume, para dar credibilidade às fanfarronadas, charlatanices, lapalissadas de político de meia tijela, que “cada vez mais os bancos olham ao mérito dos projectos e aqueles que não olham pagam um preço por isso. As empresas que olham mais aos amigos do que à competência pagam um preço por isso, mas esse preço não pode ser imposto à sociedade como um todo e muito menos aos contribuintes”. Está a gozar com todos nós!!! Os 300 milhões que a CGD emprestou ao BES foi pelo mérito dos projectos? E os 900 milhões da PT ao GES foi pelo mérito dos projectos? E o Estado que tem descaradamente beneficiado a famiglia Espirito Santo desde que esta começou a reconstituir os tentáculos do polvo? Foi pelo mérito dos projectos? E o trânsito entre quadros do grupo Espírito Santo e o aparelho de estado e os partidos do chamado arco governativo? Foi para beneficiar o Estado? Para colocar os partidos mais próximos da realidade? Foi por mérito desses quadros? Ou foi para garantir e ampliar a influência da “famiglia” espírito do santo nos destinos do país a seu favor? Apesar de não terem um pingo de vergonha, pelo menos fechem a carcela!
Paulo Portas, um técnico de vendas com a escola toda, mestrados e doutoramentos adquiridos em anos de frequência das feiras, alinha várias alarvidades, com o ar sério de vendedor de vigésimos premiados, com o cuidado de não se referir aos amigos espíritos santos, ai Portucale, Portucale!«os portugueses já pagaram muito caro erros do sistema financeiro», defende «economia de mercado com responsabilidade ética (…) nós não acreditamos no Estado como produtor de riqueza e temos receio do Estado como produtor de dívida, mas queremos um Estado que seja um regulador forte e um supervisor eficiente».
Como se ética e mercado tivessem alguma vez andado de braço dado. Como se não fosse o Estado a vaca onde toda essa gente mama, acarinhada por Portas&Comparsas.
Desde que começou o folhetim do Grupo Espírito Santo. Passos Coelho e Paulo Portas tinham toda a confiança no que “já foi dito pelo senhor doutor Ricardo Salgado” e assumiam “todo o respeito” pelas questões internas de um grupo privado. Esses dois e a camarilha dos governantes são os mesmos que sacaram milhares de milhões de euros a pensionistas, a desempregados e a trabalhadores no activo para tapar roubos e buracos de negócios desastrosos feitos por entidades privadas que eles tanto respeitam. A história repete-se e é cada vez mais sinistra.
Por fim, António José Seguro diz que está menos preocupado com a situação do BES depois da reunião que teve com o Governador do Banco de Portugal. Diz que, como líder do PS, “recolheu informações que lhe garantem que os portugueses podem estar tranquilos”. O gajo é parvo? Queria que o Governador do Banco de Portugal lhe dissesse que aquilo é uma choldra que andou a gamar à tripa forra? Que ainda não se sabe quantos milhares de milhões vão ser necessários para tapar o buracão?
Esses três da vida airada mentem, sabem muito bem que vão ser os contribuintes a pagar com língua de palmo a roubalheira. Que o BES mais cedo ou mais tarde, com nova ou velha administração, perdida ou reciclada a confiança dos mercados, vai ao saco dos seis mil milhões de euros do empréstimo total feito na base do Pacto de Agressão, que continuam guardados para salvar os bancos e que deveriam ser utilizados para promover a economia. Que quem paga a factura da troika somos nós enquanto as grandes fortunas, os especuladores, continuam a ser poupados.
Esses três da vida airada, mais os que os antecederam são das famílias políticas e do sistema político que permitiu que em trinta anos o Grupo Espírito Santo, com golpadas conhecidas e, pelos vistos, desconhecidas, todas muito éticas, sejam legais, alegais ou ilegais, acumulasse:

  • 7.000.000.000.000 de euros
  • 200.000.000 de euros em cada ano
  • 17.000.000 em cada mês
  • 550.000 em cada dia
  • 24.000 em cada hora

Claro que o problema não é do grupo Espírito Santo é da natureza do sistema e dos políticos e dos partidos que o sustentam, os tais que o Cavaco quer ver concertados, que permite sucessos e insucessos deste jaez. Leia-se o post “Pobrezinho Sim, Honesto Nunca”, aqui publicado em 2010, sobre Ricardo Salgado, antes de conhecidos os actuai lances.

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2- O CIRCO PRIVADO DO GOVERNADOR

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal tem sido muito elogiado pela claque do costume, pela forma sagaz com que tem tratado o caso do Grupo Espírito Santo. Outra coisa não seria de esperar dessa gente que empapa os órgãos de comunicação social com comentários e notícias que são uma roda dentada importante no movimento do sistema em que pontificam os doutores e doutorecos fonsecas & burnays dos Espíritos Santos e congéneres.
Pode-se levar a sério um governador do Banco de Portugal, que só actuou quando se sentiu entalado entre a espada e a parede e não lhe restou outra alternativa senão intervir?
Pode-se levar a sério um governador do Banco de Portugal que pactua com gente que manipula contabilidades para esconder défices de milhares de milhões? Gente que inscreve nos seus activos acções representando ficticiamente milhares de milhões que de facto só valem 10% ou menos? Que, segundo os jornais, atribui idoneidade a troco de um espirito santo mais renitente sair da administração do BES? Que não considera grave um presidente de uma instituição bancária receber luvas de dezenas de milhões de euros de um construtor civil mal cheiroso, o que noutros países daria direito a ser preso, a ser levado algemado para a prisão, em directo e a cores? Que permite que os espíritos santos, sejam salgados ou ricciardis, se preparem para inventar e entrar num Conselho Estratégico, para continuarem a ter um comando à distância no BES? Apesar de Ricardo Salgado já ter nos novos membros do CA, pelo menos alguém que andou com ele de braço dado num virote para salvar os Espíritos Santos do abismo para que parecem caminhar, com os bolsos a abarrotar de maravedis. Alguém avalizado pelo novo presidente do CA do BES e pelo governador do BdP. Tudo gente que frequenta os mesmos salões, sejam eles restaurantes, academias, ginásios, cabeleireiros ou casas de meninas com profissão mais antiga mas de princípios mais sólidos. Gente que nunca se perde no paraíso que é o Portugalito, debaixo das asas do galo de Barcelos que debica as migalhas que os grandes grupos económicos despejam nos pátios das traseiras dos partidos que nos têm governado há quase quarenta anos.

 

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3-O CIRCO DOS BONS RAPAZES

Enquanto a galinha punha hora a hora e pontualmente ovos de ouro, a famiglia espírito santo, seguia em manada o padrinho, embalada pelo tilintar da dinheirama derramada nos seus bolsos pelas cornucópias que durante dezenas de anos multiplicavam rios de maravedis com múltiplas actividades ilegais, desde a fraude fiscal à falsificação de contabilidade, a utilização do dinheiro dos depositantes em benefício dos próprios, a intensa promiscuidade entre os banqueiros e o poder político. Não uma árvore, uma floresta de árvores das patacas.
Era um pagode apesar dos problemas judiciais por práticas ilícitas em múltiplas praças que não a nacional, à sombra da sonolência que invade os gabinetes do BdP, apesar dos sobressaltos BCP, BPN, BPP, Banif. Porque há que respeitar e ter confiança na actividade privada bancária, nos seus senhores e senhoritos.
Os problemas começaram com a guerrilha pública na famiglia. Um turco mais jovem queria substituir o Padrinho. Já não lhes respeitavam os assobios e os chitos como antigamente. Estava a falhar à generalizada e santa ganância. Os golpes não tinham a mesma eficácia. Não estavam a render o esperado, embora toda a famiglia bem se esforçasse em manipulações sofisticadas que não estavam a resultar tão bem como no passado recente. O dinheiro que lhes entrava em cascata nas suas contas bancárias, nos seus bolsos já não lhes satisfazia a desmedida cupidez. Eram tão felizes na candonga financeira, a falsificarem contabilidades, a fazer transacções fictícias entre o labirinto de empresas dominadas pela famiglia, a vender gato por lebre aos seus depositantes, investidores, crentes no espírito santo e agora só chatices…bagunças…
Até o governador do BdP, apesar da reputação da Famiglia, se deu ao luxo de não querer espíritos santos na administração do banco para lhes salvar o banco! Tudo bons rapazes que vão continuar a gozar com o muito de que se apropriaram sem produzir nada! O crime compensa !!!

 

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4- O CIRCO DO RISCO SISTÉMICO
Num país em que um ministro da saúde está a destruir o Serviço Nacional de Saúde sem se deter, mesmo quando põe em risco a vida dos portugueses, eis que surge essa inventiva e maravilhosa frase recuperada dos manuais de sanidade: o risco sistémico.
Aliás se existe área em que a finança é altamente criativa é na invenção da linguagem. Os gurus, mesmo os nobelizados. falham sistematicamente as previsões, enquanto inventam conceitos para baralhar e voltar a dar o mesmo. Algumas são verdadeiras pérolas. Engenharia financeira, um guarda-chuva de todas as especulações financeiras. Crescimento negativo para não dizer que está tudo a ir água abaixo. Imparidades, defaults, contabilidade criativa sei lá mais o quê, um teatro de vozes que alimenta a vigarice intelectual.
Uma das últimas, o risco sistémico. À pala do risco sistémico os estados têm sustentado a voracidade e a falência sucessiva do sistema financeiro. Como se o sistema financeiro fosse o motor do desenvolvimento económico. O coração insubstituível do sistema económico.
É a grande mentira!
Os mercados financeiros não produzem, nunca produziram nem nunca produzirão nada! É a economia real que o faz. Andar atrás do brilho da montagem russa dos mercados financeiros é um erro. A exuberância dos mercados financeiros é uma ficção. Limita-se, na melhor das hipóteses, a ser um reflexo da base real na qual assentam, da qual extraem a riqueza, sem produzirem nada. Especulam. Especulam sempre na margem do roubo legalizado e organizado. Ultrapassam essas porosas fronteiras. Geram bolhas, outra maravilha linguística, que rebentam de forma súbita, descoordenada, como estamos a assistir no BES.. Os efeitos vêm sempre em catadupa, com falências, desemprego massivo, redução de salários, de protecção social, de direitos fundamentais dos cidadãos. Sofrem os países mais pobres e com economias mais frágeis, como o nosso.
Os portugueses estão hoje bem mais pobres e desprotegidos e com uma economia muito menos capaz de responder do que há quatro anos. Os festejos que Passos Coelho, Portas e seus correligionários andam a fazer, é um tenebroso circo.
O povo nunca ganha quando os títulos ou as acções são transaccionados por valores muito superiores ao seu valor real. Ganham, com toda a certeza, os accionistas dos grupos económicos e financeiros cotados em bolsa, mas esse ganho não resulta da exploração das actividades concretas desses grupos.
A ganância e a loucura política que hoje dominam foram e são trágicas para milhões de pessoas. Há, a nível mundial, criminosas negociações, desenvolvido à socapa por governantes e tecnocratas ao serviço das grandes multinacionais, que não apenas procuram erodir ainda mais a regulação financeira, como transformar em meros produtos de mercado os recursos essenciais à vida das pessoas.
Este é o verdadeiro risco sistémico que se pretende iludir quando um bando que andou anos a banquetear-se lautamente é vítima da sua própria ganância. Do muito que ganharam e que por acaso infeliz, por um erro de cálculo se estampou.

Sei apenas duas coisas muito simples, disse Heikal
(…) a primeira é que o mundo em que vivemos
é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes
(…) a segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério;
é isso que eles querem, que os levemos a sério
Albert Cossery, A Violência e o Escárnio
Edições Antígona 1999

E… BOAS LEITURAS

Há encontros aos quais não podemos faltar, por cumplicidade ou por genuíno prazer. E se a leitura é o vício bom que tudo avassala, fruto de uma experiência repetida vezes sem fim, então não deve deixar de conhecer este novo site – Deusmelivro.com – que se propõe divulgar/falar de autores, de livros e de livrarias… pois o que se lê é muito precioso e transcendente.

A leitura é, frequentemente, uma ajuda. Sabemos que pode mudar vidas, tal qual o farol que alumia a noite escura… sem parar.

Deixo aqui um pequeno aperitivo… delicioso.

Histórias com Bicho – Livrarias #1

Por 

Conhecem aquela sensação, propagada através do cinema e da literatura, de se percorrer um deserto sem fim à vista e, do nada, dar-se de caras com um belo oásis, cercado por belas árvores e com a dádiva inesperada de água fresca? Pois bem, a livraria Histórias com Bicho é também ela um oásis, descoberto após uma travessia que parece não ir dar a lado nenhum mas que, no final, reserva uma recompensa de todo o tamanho.

Mas comecemos pelo início. Em 1999, na cidade de Tomar, nascia uma editora infantil chamada O Bichinho de Conto, fundada em parceria por Mafalda Milhões e Pedro Maia. A Editora começou com o livro “Perlimpimpim…Perlimpimpão” – da autoria de Mafalda Milhões -, uma edição de autor feita nos tempos da faculdade que viu a luz da edição graças a um grupo de amigos que acreditou que seria possível dar forma ao impossível. Seguiram-se títulos como “Come a sopa Marta” – de Marta Torrão -, “O Desejo da Lua” – de Montse Gisbert – ou “A morte e o nascimento de uma flor” – de Elvira Santiago, Joana Quental e Alberto Péssimo -sempre à volta do mesmo desígnio: ler e dar a ler materiais gráficos de qualidade, desenhados com rigor, cuidado e atentos aos pequenos detalhes.

Depois do nascimento da Histórias com Bicho, um projecto que começou na Fábrica da Pólvora de Barcarena, em Oeiras, num dos espaços da Lugar Comum, a editora entrou em modo pausa, dedicando-se por inteiro à livraria, à mediação de leitura e à formação de leitores.

Há sete anos, tendo por missão a descentralização da cultura e o devolver da vida a uma zona de baixa e média densidade urbana, a Histórias com Bicho fez as malas e andou a percorrer o país à procura de um sítio com características muito especiais. Depois de uma demanda de contornos Quixotescos, o lugar especial para a implantação da Histórias com Bicho foi finalmente encontrado a 2,5 quilómetros de Óbidos, na localidade de Casais   Brancos.

Numa escola onde outrora crianças e adultos se encontravam para aprender, os olhos procuram o castelo, a lagoa ou o mar, num horizonte atravessado por um bonito monte. Em redor há também um poço, uma árvore gigante e ovelhas e cabras à solta, num cenário que parece ter nascido de um bonito sonho de infância. Aqui nasceu uma livraria especializada em literatura infantil, a primeira Livraria que Óbidos conheceu ainda antes de se ter tornado uma Vila Literária, que colocou à disposição dos leitores um catálogo de edições nacionais e internacionais, onde se encontram algumas das mais belas preciosidades editadas.

Mas nem só de livros vive a Histórias com Bicho. A livraria oferece uma agenda regular de actividades de promoção da leitura, apoio na formação de pais, educadores, professores e outros mediadores de leitura e um atendimento especializado, que junta muita simpatia e, na grande maioria das visitas, uma chávena de chá.

Charlie Haden, um contrabaixo para a história do jazz

Charlie Haden, morreu sexta-feira em Los Angeles, aos 76 anos. É um dos maiores contrabaixistas da história do jazz.
Foi um dos músicos mais eclécticos do jazz, indo das formas mais clássicas às experimentações que abriram novos caminhos a esse género de música, sem nunca se render a estereótipos, nem se acomodando a estandardizações.
Iniciou a sua carreira de músico com Hampton Hawes, um dos mentores do bebop, enquanto frequentava a Westlake College of Music, onde se encontrou com Paul Bley e Art Pepper.
Poucos anos depois fez parte, com Don Cherry, trompete e Ed Blackwell, bateria, do Quarteto de Ornette Coleman, sax alto, que virou o jazz do avesso. Célebres os álbuns The Shape of Jazz to Come e Free Jazz, A Collective Improvisation, em que dois quartetos tocam em simultâneo, duas longas performances.

Participaram nessa gravação nuclear do nascente free jazz, além dos citados Eric Dolphy, clarinete baixo, Freddie Hubbard, trompete, Scott La Faro, contrabaixo e Billy Higgins, bateria. Parceiros que ficaram para a vida e para história do jazz na exploração dos sons de vanguarda.
.As suas parcerias no jazz multiplicaram-se. Integrou com Dewey Redman (sax) e Paul Motian (bateria) o célebre quarteto americano de Keith Jarrett. Tocou com muitos outros destacados músicos de jazz como Jack DeJohnette, Hank Jones, Kenny Barron, Jan Garbarek, Geri Allen, Chet Baker, Enrico Pieramunzi ou Gonzalo Rubalcaba. Andou pela chamada música de fusão com Egberto Gismonti ou Pat Metheny. Experimentou outras músicas com Rickie Lee Jones (Pop) ou Carlos Paredes com quem gravou em 1990 Dialogues.

Aliava o fulgor instrumental à militância política. Revolucionário com o seu instrumento, revolucionário nas suas opções políticas. Com Carla Bley fundou a Liberation Music Orchestra que, no seu primeiro disco celebrou a Guerra Civil de Espanha e, mais tarde, em The Ballad of the Falhem, de novo impulsionado pelo afã de experimentação e o compromisso político de esquerda, toca La Passionaria e Grândola de José Afonso que cruza com o tema da palavra de orden O Povo Unido jamais será Vencido.

A primeira vez que veio a Portugal, em 1971 no 1º festival de Jazz de Cascais, integrando o quarteto de Ornette Coleman, introduziu o tema Canção para Che, o que já era uma provocação à ditadura, dedicando-o aos Movimentos de Libertação de Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde O Pavilhão de Cascais, primeiro sem quase acreditar no que ouvia e depois a perceber perfeitamente o protesto, aplaudiu freneticamente.
Charlie Haden, contaria mais tarde no programa Democracy Now, que só tinha decidido vir a Portugal, exactamente pela oportunidade que teria de fazer um protesto público contra o fascismo e o colonialismo. Não perdeu essa oportunidade pondo o pavilhão em polvorosa, aplaudindo e gritando palavras de ordem pela liberdade e contra a guerra colonial.

Charlie Haden foi preso pela PIDE. Por intervenção do adido cultural dos EUA, foi colocado na fronteira. Só voltaria a Portugal depois da Revolução do 25 de Abril para tocar na Festa do Avante! num célebre concerto. Voltaria, com diversas formações, para integrar os programas do Jazz em Agosto na Gulbenkian e novamente Cascais.

O último disco que gravou com Keith Jarrett, editado em Junho deste ano, foi premonitoriamente intitulado Last Dance.