Debates à Esquerda

desert wall.tifAs eleições legislativas aproximam-se a passos largos. Depois de anos de hecatombe social está por perceber se há novas alternativas à coligação da Direita.

Resistirá o actual quadro partidário, mantendo-se a tradicional alternância dentro do centrão? Ampliar-se-ão os sinais de fragmentação de voto já manifestados nas últimas eleições autárquicas e europeias? Surgirá à Esquerda uma nunca experimentada alternativa credível e com possibilidade de aceder ao poder?

O estado de degradação a que governação da Direita conduziu o país nos últimos anos tornou imperiosa a existência de uma alternativa política. Uma alternativa de opções de fundo, que não apenas uma mera alternância entre os velhos, ou novos, protagonistas do centrão (PS, PSD e às vezes CDS) e as suas políticas que pouco se têm distinguido nos últimos quase quarenta anos. Anos marcados pela sobreposição do poder financeiro.

A interrupção do desastre terá que considerar como objectivos de primeira ordem a manutenção do Estado social, nomeadamente no acesso à educação, à saúde e à segurança social, a definição de um sector público estratégico inalienável, a prioridade da criação de emprego e a valorização do trabalho. Para o conseguir não restarão muitas dúvidas de que a dívida terá que ser reestruturada, bem como renegociada a aplicação dos critérios do tratado orçamental que pesam sobre o país e a maioria dos portugueses como uma pesada canga.

Uma das linhas de debate à Esquerda tem sido o papel que o PS pode ter nessa alternativa. As actuais movimentações no seio do Bloco de Esquerda, que culminaram com a saída de alguns seus militantes proeminentes, imbricam, segundo os próprios, na relação com o PS e na possibilidade de o influenciar em algumas opções cruciais.

Pretendem alguns que a alteração de fundo de que o país precisa passa pela perspectiva de o PS regressar ao poder nas próximas eleições legislativas.  Propõem-se a com ele negociar para lhe mudar a sua longeva postura de partido centrista, que oscila entre a social-democracia e a tentação néo-liberal… Ora piscando à esquerda, ora à direita.

As intenções parecem boas. Fazer o PS virar à Esquerda e partilhar uma nova postura sobre aquele que é o actual nó górdio da situação política e económica do país – a necessidade de negociar as políticas decorrentes do tratado orçamental europeu, que consequências tão nefastas têm trazido para o país.

É expectável que o PS, que em Abril de 2012 votou favoravelmente o tratado sem qualquer objecção, venha a ter alguma atitude séria que conduza à sua renegociação? Nem Costa nem Seguro foram até à data explícitos sobre o tema, percebendo-se o quão manietados estão pelos compromissos com os seus colegas europeus. Não fossem, aliás, os socialistas europeus co-responsáveis pela monstruosidade que afunda o país.

Resulta claro que só um reforço eleitoral à esquerda do Partido Socialista poderá fazê-lo inflectir de posição e levá-lo a negociar. Uma alteração que corroa a sua expressão eleitoral e reforce, nomeadamente, um eixo que tem hoje expressão no CDU-PCP/PEV e BE, ou outras formações desta área política.

Mas é também lamentavelmente claro, como já aqui exprimi em (1) e (2), que o eleitorado não tem tido à sua disposição uma opção clara de Esquerda que lhe dê um sinal de esperança numa solução de governação. Só o crescimento eleitoral dessa área poderá criar uma nova opção política na sociedade portuguesa que se equilibre com o Partido Socialista, numa perspectiva de efectivo acesso à governação. E aí talvez seja possível negociar seriamente com o PS. Não antes disso.

Sem um pólo agregador e por “falta de comparência” pode começar a ser tarde para que o eixo da alternativa política se desloque para a Esquerda. E como não há vazios em política essa ausência será preenchida por novas formações ou pela manutenção do centrão.

São algumas as experiências de limitado (?) sucesso de grupos que tenta(ra)m influenciar o rumo centrista com laivos de neoliberalismo do PS. Do MES à Refundação Comunista, passando pela Fraternidade Operária/UEDS de Lopes Cardoso. Sempre acabaram acomodados no velho PS centrista. E mais ou menos transformados em lenços avermelhados na lapela rosa socialista…

O GRANDE GUIGNOL DA JUSTIÇA,NUM PAÍS QUE É UMA DEMOCRÁTICA CHOLDRA

lata de atum

carcaça

 

Um sem-abrigo cheio de fome que rouba uma lata de atum e uma carcaça num supermercado, num valor total que não chega a um euro, é preso sem direito a caução e vai dormir nas enxovias da cadeia.

Um figurão, arguido pelos crimes de burla, abuso de confiança, falsificação de documentos e branqueamento de capitais, vai para casa dormir em lençóis de seda com uma caução de € 3 000 000,00 (três milhões de euros), proibição de se ausentar do território nacional, proibição de falar com determinadas pessoas.

Que crime vale uma caução de três milhões de euros? Onde é que o arguido sacou três milhões de euros para pagar a caução? Grande guignol da justiça para fingir que ninguém esta acima da lei.

Isto não é um país é uma choldra democrática em que os ricaços, apanhados numa curva onde derraparam movidos por extrema ganância, continuam a ser ricaços defendidos por advogados, no caso tal filho tal pai, pagos a preço de ouro do bandido que os mantém a navegar por cima das ondas da lei feita à medida de quem tem poder económico. Todos bem sabemos que entre a justiça e a lei há um abismo e que a lei é o direito do mais forte à liberdade.

Esta é mais uma história da  lusitana Nau Catrineta, que ainda tem muito que contar, do chefe da famiglia Espírito Santo, Salgados e Ricciardis, que continuam alegremente em liberdade rebolando-se nos milhões que durante anos roubaram legal, alegal e ilegalmente como se vai sabendo, acalantados pelos partidos do chamado arco governativo que organizaram e mantém este sistema político-económico que permite escandalosas acumulações de capital e que, durante quase quarenta anos, até hoje, até amanhã, enquanto os deixarmos continuam a governar.

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Vil desemprego

Aquele largo era o lugar de todos os encontros e de todas as brincadeiras… das desgraças também.

Todos os dias ele ali estava. Sentado naquele banco de jardim, mesmo no centro da praça, quase pasmado, bebendo um vinho leve e barato, em pequenos tragos, tentando matar a mágoa inexplicável que sentia por dentro, como acontece aos inocentes quando são presentes à presença do juiz. Sempre que o observava, ele chorava, sofria, como quem aguarda pela morte que tudo apaga, calando definitivamente esperanças e ansiedades durante anos adiadas.

António já não sentia forças para deixar de beber… e, bebendo, eu ouvia-o dizer as mais baixas vulgaridades. Às vezes ria dos insultos que lhe dirigiam e, em vez de responder, baixava a cabeça, num quase recolhimento religioso, apesar de indignado.

A vida tinha mudado… e muito. Já não tinha que fazer, ia para dois anos, apesar de ser um “velho”… ainda novo.

Matilde, sem dizer nada, tinha partido e ele nem sabia para onde.

Recordar Carlos Paredes

A sua música é porventura do que melhor exprime a alma portuguesa. Carlos Paredes desapareceu do nosso convívio há precisamente dez anos, em 23 de Julho de 2004, mas deixou-nos temas musicais sublimes e perpétuos, de uma beleza rara, clara e profunda. Alguns dos melhores temas da música portuguesa.

Músico do nosso tempo. Mas músico de uma dimensão intemporal. Compositor e exímio executante de guitarra portuguesa. Homem a que à arte associou uma postura de intervenção cívica e política como militante comunista. Quando tal era difícil e doloroso. Uma opção que pagou com o cárcere e a expulsão da função pública.

Paredes deixou-nos obras imortais, impressas em álbuns e CD’s (*) como: “Guitarra Portuguesa” (1967), “Meu País Canções” (1970), “Movimento Perpétuo” (1971), “Concerto em Frankfurt” (1983), “Intervenções Livres” (1986), com António Vitorino de Almeida, “Espelho de Sons” (1988), “Asas sobre o Mundo” (1989), “Dialogues” (1990) com Charlie Aden, “Carlos Paredes / Artur Paredes” (1994), “Na Corrente” (1996). Para além das muitas colaborações com outros artistas. Também a sua participação no cinema foi notável. Como não recordar o tema que interpretou para o filme “Verdes Anos” (1963) de Paulo Rocha?

Diz com quem ele privou que a sua simplicidade desarmava. Como é próprio das almas grandes!

Bem hajas Carlos Paredes pelos maravilhosos momentos de felicidade que nos continuas a proporcionar.

 

 

(*) – informação mais completa sobre a discografia ver aqui

UCRANIA:INFORMAÇÃO/CONTRA-INFORMAÇÃO

ucraniaA informação e a contra-informação correm à desfilada na Ucrânia. Poucas coisas são certas. Muitas podem-se decifrar das declarações que são feitas pêlos intervenientes ocidentais e ucranianos. Muita dessa informação adquire, porque não interessa, pouca relevância nos meios de comunicação social.

1-    Um comunicado da equipa de inspectores da OSCE, chefiada pelo dinamarquês Kai Wittop, em Lugansk, cidade recuperada pelas forças ucranianas, depois de visitar as zonas bombardeadas pela artilharia e pelos aviões governamentais ou a soldo do governo ucraniano (*), concluiu que as zonas bombardeadas eram zonas onde não existiam instalações nem dispositivos militares dos separatistas, mesmo móveis. Recolheu informações que os levam a calcular que os bombardeamentos fizeram 250 vítimas civis mortais e 700 feridos. Isto confirma as denúncias dos separatistas e desmente a propaganda oficial, o que explica o pouco relevo que é dado.

2-    Lembre-se um inquérito imparcial e independente na altura muito reclamado, subitamente  atirado para o caixote do lixo. Quando das manifestações da Praça Maidan, a polícia do então governio de  Yanukovych foram acusadas de ter atiradores furtivos a disparar sobre os manifestantes.

Que se faça um inquérito pedia-se em grande grita, com ecos nas chancelarias ocidentais. De repente o silêncio. Não deve ser estranho a esse silêncio a conversa entre o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Estónia, Urmas Paet, e o Alto Representante da União Europeia para os Assuntos Exteriores e a Política de Segurança, Lady Catherine Ashton em que o primeiro, que tinha estado na Praça Maidan a dar apoio aos manifestantes, revelava à segunda que os atiradores furtivos pertenciam aos grupos de extrema-direita dos manifestantes. Tanto disparavam sobre a polícia como sobre os manifestantes. A exigência de inquérito e o inquérito foram rapidamente para o lixo. Nada como confiar no esquecimento e na falta de memória.

3-    Os separatistas pró-russos eram acusados de terem accionado o míssil que supostamente abateu o avião da Malasya Airways. Agora é o chefe dos Serviços Secretos Ucranianos, Valentyn Nalyvaychenko, depois de ter repetidamente, em linha com os governantes ucranianos, defendido essa tese veio esclarecer que isso não seria possível porque eles não teriam nem treino nem habilitações militares para tal. Tinham sido militares russos. No dia anterior tinha dito, ele e o inefável primeiro-ministro Arseni Iatseniuk que os russos tinham fornecido sistemas Buk aos separatistas pró-russos. Agora, quando veio com essa nova teoria nenhum dos jornalistas presentes se lembrou de perguntar para que é que os russos entregavam e para que é que os separatistas queriam um sistema que não lhes servia para nada.

Esse senhor que diz terem sido militares russos, é o mesmo senhor que, dias antes,sempre  em linha com os governantes ucranianos, revelou conversas gravadas supostamente entre separatistas e militares russos sobre o abate do avião, provando terem sido os separatistas os responsáveis pelo seu abate. Gravações que a metadata da gravação demonstrou serem falsas por terem sido feitas um dia depois da queda do avião. Nos meios de comunicação social ocidentais isto também teve pouco ou nenhuma importância em nome da verdade jornalística e dos critérios editoriais. Depois das gravações ele promete fotos, vídeos sabe-se lá mais o quê. Claro que tudo muito sério e veraz dados os antecedentes.

4-    A nova teoria trazia água no bico. John Kerry, depois de dias em que Obama e ele próprio afirmavam ter informações fiáveis de que o disparo do míssil tinha partido de território ocupado pelos separatistas avançou com a teoria de que o disparo foi feito por militares russos que tinham atravessado a fronteira e retornado à Rússia. Completava assim a informação do chefe dos serviços secretos ucranianos. O que se estranha é que John Kerry ainda não tenha mostrado fotos comprovativas da sua teoria. Colin Powell foi mais rápido e eficaz quando desdobrou no Conselho de Segurança da ONU, inúmeras fotografias que demonstravam inequivocamente a existência de fábricas de armas de destruição maciça no Iraque que nunca existiram, como se veio a provar. Será que a Secretaria de Estado dos EUA, mais os vários serviços secretos norte-americanos estão a perder qualidades? O alçado principal de John Kerry não denuncia uma inteligência por aí  além, mas ficamos inquietos com estes atrasos. Só conversa? Só conversa e nada de provas? Pergunte ao Colin Powell como se fabricam! Podia marcar uma nova cimeira nos Açores com o Cameron e o Rajoy, Passos e Portas fardados de motoristas e porteiros! A história repetia-se, a farsa continuava com novos protagonistas. A representação seria cada vez mais medíocre.

5-    Foram os separatistas pró-russos repetidamente acusados de não darem acesso ao lugar onde os destroços estão dispersos. Os separatistas garantiram que cumpririam um cessar-fogo de quatro dias para a missão internacional se deslocar ao local. Agora sabe-se que o cessar-fogo nunca foi aceite por Petro Poroshenko que diz não negociar com “terroristas”.

Os inspectores da OSCE falam cuidadosamente numa zona insegura, de onde se ouvem tiroteios constantes. Esquecem-se de falar da não aceitação da trégua pelo governo ucraniano.

Ontem e hoje há combates que se estão travar nas imediações da estação de caminho de ferro de Thorez, onde estão os vagões frigoríficos com os corpos dos malogrados viajantes do voo MH17. Nas proximidades do local da queda do Boeing, entre a colina de Saur-Mogila e o posto fronteiriço de Marinovka, continuam intensos combates. Ouvem-se novamente explosões de projécteis de artilharia.

O cúmulo do cinismo é o governo ucraniano dizer que os combates não são entre tropas governamentais que atacam os separatistas, mas entre os batalhões de voluntários, leia-se grupos armados de extrema-direita e mercenários da Blackwater que combatem integrados no exército da Ucrânia e agora estão aí estão a combater os “terroristas”.

6-    Obama e companhia, obviamente na primeira linha os seus mandaretes de Kiev, acusam antes de qualquer prova. Cameron mostra os dentes. Merkel e a Europa do Norte são mais moderados, embora afinem pelo mesmo diapasão.

Israel aproveita o ruído mediático para matar sem dó nem piedade os palestinianos de Gaza.

O dólar range com a possibilidade real de acabar por valer tanto como as notas do jogo do monopólio, depois do encontro dos BRICS, Brasil, Rússia, India, China e União Sul-Africana, que decidiram fundar um Banco de Desenvolvimento para apoiar países emergentes e substituir, entre si e com os países com que fazem comércio, o dólar por uma moeda que volta a ter por padrão o ouro.

7-    Nesta crise, como nos inquéritos e nos romances policiais, duas coisas a não esquecer:

a)    Quem é beneficiado com a queda do avião da Malasya Airways?

b)   Será que os EUA, segundo a voz autorizada de Victoria “que se foda a europa” Nuland, investiram cinco mil milhões de dólares na destabilização da Ucrânia e vão ficar sem retorno?

 

(*) as tropas que lutam contra os separatistas pró-russos são constituídas por tropas governamentais ucranianas, exército regular e tropas de elite, batalhões armados da extrema-direita e mercenários da Academi, contratados por oligarcas ucranianos. A Academi (antiga Blackwater) é uma empresa de mercenários com sede em Moyock na Carolina do Norte, Estados Unidos e contas nas Ilhas Caimão. É formada por vários tipos de paramilitares, por ex-integrantes dos Seals e outras chamadas forças de elite. A companhia fornece mercenários e vários outros serviços paramilitares. Foi fundada em 1996 por Erik Prince, que em Agosto de 2009, em depoimentos sob juramento de ex-funcionários, foi acusado de assassinar ou facilitar o assassinato de indivíduos que vinham colaborando com as autoridades federais americanas que investigam o envolvimento da Companhia em vários escândalos. A Blackwater está actuando como força auxiliar (e de segurança) no Iraque e Afeganistão, e está envolvida em várias controvérsias e investigações. Faz os trabalhos mais sujos para a CIA, nomeadamente na América Centro e Sul.

CPLP, o longo caminho da Cooperação

Julho é mês de efemérides relacionadas com a Cooperação acordada entre os Povos para o seu mútuo benefício, Progresso e Desenvolvimento.

A Declaração Constitutiva da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é datada de 17 de Julho de 1996, mas já do antecedente se comemorava, a 6 desse mesmo mês, o Dia Mundial da Cooperação.

Na CPLP, a um ritmo que todos desejariam ser mais rápido, a Cooperação vai fazendo o seu caminho, não só nos sectores comercial, económico e financeiro, mas também no social – educação e saúde – aquele em que participamos e por isso mais nos interessa.

A frequência e periodicidade com que se tem verificado a realização de conferências, consultas, seminários e outros encontros, nos quais participam altos responsáveis dos países membros da CPLP, diz bem da sua sentida necessidade e da importância que revestem os temas de cooperação analisados e discutidos em tais areópagos.

Dentre os assuntos recorrentemente tratados avultam a cooperação entre os países da Comunidade e as conclusões incluem, de modo quase uniforme, questões temáticas fixando áreas de colaboração e de entreajuda e questões de metodologia a seguir.

O tema Recursos Humanos tem estado e permanece na ordem do dia em vista do crescimento e desenvolvimento económico e social que se verifica já, ou se pressente vir a eclodir em breve, na maioria dos países da CPLP, em alguns deles de modo acelerado.

No campo da saúde a acuidade do problema da carência de recursos humanos (RHS) é ainda maior, ou mais sentida, e a necessidade de garantir a prestação de cuidados de saúde às sociedades em transformação mais ou menos rápida, conduz directamente à necessidade de porfiar pela auto-suficiência em técnicos do sector clínico, fixados e inseridos nas comunidades, prestando valioso contributo no sentido do seu desenvolvimento e progresso.

O dilema actual desses países, que se pode sintetizar na alternativa entre não terem técnicos porque os não formam ou formá-los no exterior e perdê-los, carece de ser resolvido. Continuar a ler

Um livro de vez em quando

 

 

anoiterodaNoite na terra. Nunca é noite na terra porque a noite roda. Mas é noite na terra quando duas pessoas estão coladas uma à outra. Só nós estamos vivos, somos a Arca de Noé.”

O que acontece ao amor quando irrompe por num cenário de conflito, objecto de reportagem jornalística? O que acontece ao trabalho jornalístico quando é invadido pela paixão? No romance, a cronologia é subvertida pela geografia dos lugares por onde, Ana e Leon, protagonistas da história de amor narrada por Ana, transitam por urgências e exigências profissionais. O cenário é Israel e Palestina. O sucesso a morte de Arafat, as ressonâncias antes e depois.

Nessa geografia real, os mapas da paixão vive de encontros de intenso enamoramento erótico e de desencontros em que as distâncias são preenchidas por sms e e-mails, discurso amoroso da era digital. As cartas de amor são ridículas ou não seriam cartas de amor, escreveu Pessoa. Os e-mails e sms não escapam à vulgaridade. “Isto está mesmo a acontecer-me? Um folhetim de cordel, uma opereta” (…) “A realidade é sempre má ficção” regista com violência Ana. Sabemos, logo na primeira página do romance, que a paixão entre Ana Blau, jornalista catalã, sem relacionamento conhecido e Leon Lannone, também jornalista, belga, casado, com três filhos, família a viver em Bruxelas tinha chegado a seu termo. “Escrevo para acabar com a história, escrevo para que a história comece”, Leon tinha desaparecido há quatro anos. A história persiste para lá desse desaparecimento. A história procura fazer sobreviver a história de amor entre reportagens, narrativas de viagens, sms e e-mails com canções de Brel, Sigur Rós, Leo Ferré, versos de Elliot, Kavafis, citações do Gilgamesh, Lawrence Durrell, Dylan Thomas. Ver Saraband de Bergmann, ouvir um concerto dirigido por Barenboim em Ramallah, com a sua orquestra de jovens israelitas e palestinianos. Um arquipélago de referências.

Um belíssimo romance de amor, onde duas geografias, a real e a da paixão, obstinadamente se cruzam. Onde nos reconhecemos em fragmentos, neste ou naquele incidente do trânsito amoroso, como se o tivéssemos vivido num outro ponto do mapa.

“Há sempre qualquer coisa que está a acontecer. qualquer coisa que eu deva resolver, eu não meti o barco ao mar para ficar pelo caminho. porquê não sei, mas sei que essa coisa é que é linda.”

 

_publicado no Guia de Eventos de Setúbal/ Julho-Agosto 2014