Um poema… outra vez

XXXII

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.

E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.

(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)

Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.

(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.)

E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?

Alberto Caeiro

Perguntas

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Manifestação de Professores.jpg.São 16 horas do dia 17 e…

Onde Está Nuno Crato?

Confesso que estou um tanto ou quanto admirada com o silêncio do responsável governamental pelo Ministério da Educação.

Será que se encontra em parte incerta?

Estará em férias?

Não tem coragem para se confrontar com o óbvio?

Os professores saíram à rua em 15 de Junho – foram milhares.

E quem vem dar a cara? Poiares Maduro! É certo que a Educação tem a ver com o Desenvolvimento Regional (e, sobretudo, Nacional), Mas não seria legitimo que eu esperasse ver o Sr. Professor Doutor Nuno Crato?

Não será legítimo eu esperar que o referido Professo Doutor já tivesse dito algumas palavras aos cidadãos deste País, face ao extraordinário comportamento da esmagadora maioria dos professores em defesa dos seus legítimos direitos?

Fora com ele e com todos os outros! Eleições antecipadas para que Passos Coelho perceba que não é ele que desiste: somos nós que o pomos na rua!

Guerra Junqueiro

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A Velhice do Padre EternoO DINHEIRO DE S. PEDRO

De tal modo imitou o Papa a singeleza
Do mártir do Calvário,
Que à força de gastar os bens com a pobreza
Tornou-se milionário.

Tu hoje podes ver, ó filho de Maria,
O teu vigário humilde
Conversando na Bolsa em fundos da Turquia
Com o Barão Rothschild.

A cruz da redenção, que deu ao mundo a vida
Por te haver dado a morte,
Tem-na no seu bureau o padre-santo erguida
Sobre uma caixa-forte.

E toda essa riqueza imensa, acumulada
Por tantos financeiros,
O que é a economia, ó Deus! foi começada
Só com trinta dinheiros.

Uns versos escritos em 1885 por Guerra Junqueiro param o seu livro A Velhice do Padre Eterno.

O Que Eles Disseram

cavaco-silva-e-pedro-passos-coelho560877c0_400x2251 – Horta e Costa absolvido: “Tudo quanto fiz nos CTT foi para bem da empresa que me paga o ordenado”!!!

O Tribunal de Coimbra absolveu Carlos Horta e Costa e dois ex-administradores dos CTT dos crimes económicos e de gestão danosa. “Os CTT, se hoje estão como estão, também devem alguma coisa não só a mim mas também àqueles que estiveram comigo sentados”, alega o ex-presidente.

2 – Alguns administradores (Oliveira e Costa, Dias Loureiro entre outros) do BPN foram absolvidos porque o processo foi posto no tribunal errado!!!

3 – Ministro alemão das Finanças:« Precisamos de permanecer inovadores”, através da implantação de “reformas estruturais em todos os países europeus”, que permitam ao espaço comum responder aos anseios da sua população, nomeadamente da mais jovem!!!

4 – Cavaco Silva em Estrasburgo: Maior fracasso da UE está na promoção do crescimento e na criação de emprego e que a crise exige uma resposta social, cultural e política. O desemprego e a falta de crescimento económico são «os dois maiores desafios» dos dias de hoje, para os quais ainda não foi encontrada uma «resposta eficaz», acrescentando não ser surpreendente que a eles se junte «um divórcio crescente entre decisores e cidadãos». Durante «demasiado tempo, a atenção esteve concentrada na austeridade para a correção dos desequilíbrios das contas públicas, relegando para um plano secundário o crescimento económico».

5 – Poiares Maduro diz que não foi possível mudar o exame de 17 para 20 de Junho, porque não houve compromisso dos sindicatos para não fazerem greve noutras datas de exame.!!!

6 – Passos Coelho: Claro que é normal recandidatar-me; não nenhuma razão para eu desistir!!!

7 – Ainda de Cavaco Silva: Há cerca de 30 anos, tínhamos um sector agrícola profundamente estagnado;(…) Hoje, tudo mudou!!!

6 – Racep Tayyip Erdogan, primeiro-ministro da Turquia: «Atacam a minha polícia, odeiam a minha polícia»!!!

Poderia tecer vários comentários a estes “dizeres”, mas penso que todos me compreenderão.

O Vaticano e A Evangelização da Vida

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O Vaticano resolveu vir falar de uma «Evangelização da Vida» que teve como tema «Acreditando, temos a vida» e centra-se, segundo a Santa Sé, no «testemunho do Evangelho da vida, em defesa da dignidade da pessoa desde o primeiro instante até ao seu último momento natural».

Certamente que o Vaticano sabe que a má-nutrição mata por ano 3, 1 milhões de crianças; mas a má-nutrição afecta negativamente o peso e a altura das crianças, o seu desenvolvimento, com repercussões no seu desempenho escolar e também as torna mais vulneráveis a doenças infecciosas.

O Vaticano deverá saber que este ano existem mais de 900.349.400 pessoas desnutridas no mundo, embora as estimativas da Unesco sejam de mil milhões.

Certamente que o Vaticano sabe que o direito à alimentação é o direito fundamental mais brutalmente violado e que a fome é o que mais mata no nosso planeta.

O Vaticano conhece o que afirmou Ziegler em Maio deste ano: «Quando uma criança morre de fome no mundo, ela é assassinada», porque o problema não é a escassez de alimentos, mas sim o acesso à alimentação.

O Vaticano sabe que o mundo hoje tem condições efectivas para alimentar 12 mil milhões de pessoas.Sabe, certamente, que 52,8% do Produto Interno Bruto mundial está nas mãos de algumas empresas multinacionais e que 85% dos alimentos de base negociados no mundo são controlados por 10 empresas que são as decisoras de quem vai ou não morrer fome em cada dia.

Sim, deverá saber e, contudo, oculta isto quando se limita a destacar «a vida dos idosos, dos doentes, dos agonizantes, dos nascituros, daqueles que vivem aflições fisicamente e mentalmente e de todos aqueles que sofrem». Também muitas velinhas foram acesas para «chamar a atenção sobre o tema da vida humana e do seu valor intocável».

O Vaticano, estado riquíssimo, sabe e cala estas verdades com as quais acaba por ser cúmplice pelo silêncio a que se remete.

Sim, de facto, a vida de milhões de nascituros depende da alimentação que não vão ter e morrem.

A vida dos idosos depende também da alimentação que não fazem bem como da ausência de cuidados médicos que não têm e morrem.

O Vaticano sabe as razões de tanto sofrimento físico e psíquico e cala.

O Vaticano sabe bem quais as causas da fome e da falta de cuidados médicos e cala. Sabe bem para quem a vida humana é tocável por ser destituída de qualquer valor e cala.

O Vaticano sabe, certamente, isto.

O Vaticano deverá saber e cala!

O 10 de Junho… por Baptista Bastos

Não resisti à tentação… e transcrevo.

Blábláblábláblábláblábláblá-blábláblábláblábláblábláblábláblábláblá       A magistratura presidencial destina-se a manter a coesão nacional blá blábláblblábláblábláblábláblblá-blábláblábláblábláblábláblábláblá-blábláblábláblá Não governo nem sou corresponsável pela política do Governobláblábláblábláblábláblá-blábláblábláblábláblábláblábláblá-blábláblábláblá A agricultura nunca esteve tão bem como nos últimos anos blábláblábláblábláblábláblá- blábláblábláblábláblábláblábláblá-blábláblábláblábláblá Chego sempre à mesma conclusão: se tivermos uma crise política, os portugueses ficariam muito pior blábláblábláblá.

Bláblábláblábláblábláblábláblá-blábláblábláblábláblá Estou acima das lutas político-partidárias bláblá- blábláblábláblábláblábláblábláblá-blábláblábláblábláblábláblábláblábláblá No meu horizonte não está a demissão do actual Governo, pelo menos durante a vigência do programa de assistência financeira blábláblábláblábláblábláblábláblábláblá-bláblábláblábláblábláblábláblá-blábláblábláblábláblábláblábláblá O relançamento da economia será possível com a expansão do investimento privado e o financiamento às empresas bláblábláblábláblábláblá- blábláblábláblábláblábláblábláblá-blábláblábláblábláblábláblábláblá-bláblá A demissão do Governo não deve ser feita de ânimo leve. Só em ocasiões muito especiais. Nem mesmo numa situação em que o Presidente perde a confiança no Governo bláblá lábláblábláblá blábláblábláblá- blábláblábláblábláblábláblábláblá-blábláblábláblábláblábláblábláblá-blábláblá Não comento as declarações do senhor Presidente da República; isso compete aos comentadores blabláblábláblábláblábláblblá- blábláblábláblábláblábláblábláblá-blábláblábláblábláblábláblábláblá-bláblábláblá Não percebo muito bem o discurso do senhor Presidente. Nem uma só vez se referiu ao desemprego em Portugal bláblábláblá blábláblábláblábláblábláblábláblábláblá- bláblábláblábláblábláblábláblálábláblá-bláblá Aquilo que preocupa os portugueses. Que é a crise, os problemas que os afectam, desemprego, recessão, não tiveram eco, de facto, neste discurso blábláblábláblábláblábláblá- blábláblábláblábláblábláblábláblá-bláblábláblábláblábláblábláblá O senhor Presidente da República teve um discurso muito responsável, muito galvanizador. Foi um Presidente da República da esperança bláblábláblá blábláblábláblábláblábláblábláblá-blábláblábláblábláblábláblá O Presidente da República saberá, com certeza, os temas que escolhe. Aquilo que nos parece é que faz sentido falar da agricultura, que é um tema muito importante blábláblábláblábláblábláblá-blábláblábláblábláblábláblábláblá-blábláblábláblábláblá Gatunos! Gatunos! Gatunos! Demissão! Demissão! Gosto muito de paradas militares. Por isso cá estou. Mas que estão a fazer aqui estes gajos do Governo, que só têm dado cabo do país? (…) Nobre povo, nação valente (…) Às armas! Às armas!

Um forte ataque à Península de Setúbal está em curso

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250px-LocalRegiaoLisboa.svgO governo enviou para o EUROSTAT, no final do ano de 2012, uma proposta com uma nova configuração das NUTS 3[1] do território português, da qual fazem parte, entre outras, a junção das duas NUTS 3 Grande Porto e Entre Douro e Vouga numa só NUTS 3, designada AMP – Área Metropolitana do Porto (fica com 16 municípios), e, também, a fusão das duas NUTS 3 Grande Lisboa (GL) e Península de Setúbal (PS) numa só NUTS 3, designada AML – Área Metropolitana de Lisboa (mantém os 18 municípios).

No caso da AML a NUTS 3 coincide e coexiste com uma NUTS 2 que tem a mesma designação.

Isso não acontece no caso nortenho porque, lá, a NUTS 3 AMP continuará a fazer parte da NUTS 2 Região Norte, juntamente com mais 7 NUTS 3 (Alto Minho, Cávado, Alto Tâmega, Douro, Terras de Trás-os-Montes, Ave e Baixo Tâmega e Sousa)

No caso do Porto há informação de que aconteceu uma forte resistência da sub-região Entre Douro e Vouga à ideia governamental, oposição que foi protagonizada pelo presidente da CM de S. João da Madeira e, simultaneamente, presidente da Associação de Municípios das Terras de Santa Maria. Este autarca, de nome Castro Almeida, foi recentemente nomeado secretário de Estado do Desenvolvimento Regional, tendo sido anteriormente secretário de Estado de Cavaco Silva, e, além disso, também já exerceu funções de gestão dos fundos comunitários na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte. Castro Almeida, que foi um “forte” opositor interno de Passos Coelho, terá sido convencido mais tarde da “bondade” da fusão das NUTS 3.

Na região Norte houve alguma perplexidade por não ter havido reação visível contra a ideia de fusão da Grande Lisboa com a Península de Setúbal. De facto esperava-se uma forte oposição das entidades da Península contra este “apagamento” estatístico, dado o grande  valor político e simbólico negativo que encerra.

O EUROSTAT esteve a analisar a proposta feita pelo governo português e prepara-se para aprová-la em breve (talvez ainda em junho).

A ratio legis da proposta governamental quanto ao redesenho das NUTS não tem, aparentemente, apenas motivações estatísticas, porque está muito ligada ao envelope financeiro dos fundos comunitários 2014-2020 (QEC), à sua gestão aplicativa e, ainda, à “filosofia Relvas”[2] aplicada às formas de governo local, intermunicipal e regional registada na novel legislação antes referida.

O governo entende, sem que isso derive de qualquer imposição regulamentar europeia, que a cada uma das 22 novas entidades intermunicipais (20 CIM e duas áreas metropolitanas)[3] deverá corresponder uma só NUTS 3. Assim, a AMP deverá ser uma NUTS 3 tal como a AML será outra.

Mas não há, repete-se, qualquer obrigatoriedade resultante de regulamentação europeia, que aponte para um impedimento a haver duas NUTS 3 na AML. Nem nenhuma outra justificação técnica.

Aliás, se houvesse coerência na proposta governamental, a AMP seria também uma NUTS 2, destacando-se, assim, da Região Norte, tal como existe a AML. Mas isso prejudicaria muito a AMP e, por essa razão, tem sido evitada a divisão da Região Norte que Bruxelas deseja.

É bom esclarecer que essa eventual subdivisão, que faria aparecer mais uma Região desenvolvida, a da AMP, não acarretaria automaticamente uma situação prejudicial para Portugal no respeita ao montante global de fundos comunitários no período 2014-2020, porque, a Região Norte restante ficaria mais desviada da média europeia expressa em PIB/hab e, portanto, passaria a receber mais.

As taxas de cofinanciamento máximas para as “regiões desenvolvidas” serão, no período 2014 a 2020, apenas de 50 %, enquanto para as “regiões menos desenvolvidas e ultraperiféricas”[4] irá de 75 a 85 %, e será de 60 % nas “regiões em transição”[5] (Algarve).

Nas “regiões desenvolvidas” (Lisboa) prevê-se que cerca de 80% dos fundos[6] serão destinados à competitividade (SI à inovação, competitividade e apoio à exportação das empresas privadas) na forma de empréstimos e capital de risco; os 20% restantes, designadamente aqueles destinados aos municípios e outras entidades públicas e privadas, serão concentrados em temas como a reabilitação urbana das cidades, o que revestirá um perfil muito idêntico aquilo que tem sido praticado no programa Jessica. Ou seja, não serão financiamentos a “fundo perdido”, mas sim empréstimos.

Isto, para a PS, é desastroso e significa uma enorme privatização de dinheiros públicos.

Dada a enorme escassez dos recurso financeiros públicos, designadamente municipais, na proxima década, os fundos europeus revestem-se de uma importância crítica.

Há um desígnio político do governo, no sentido de “apagar” a identidade política da Península de Setúbal. E, também, uma motivação no sentido de alisar as estatísticas tapando assim a manifesta situação de divergência negativa que se tem verificado na Península nos últimos 15 anos e que as políticas públicas manifestamente não têm sabido e conseguido corrigir.

Diz-se, para combater esta ideia, que uma importante parte do valor acrescentado na GL se deve a trabalhadores que, residindo na PS, trazem consigo um fluxo financeiro devido às suas remunerações. Mas, não há dúvida que os benefícios municipais indiretos devidos ao IRC, ao IRS, e às derramas ficam na GL!

Para efeitos dos fundos disponibilizáveis no período 2014-2020, poderá dizer-se que tanto faz a PS ser uma NUTS 3 autónoma, ou fazer parte da NUTS 3 AML (que, repete-se, será simultaneamente uma NUTS 2).

De facto, em ambos os casos a situação futura será má se não houver mais fundos e, sobretudo, a possibilidade de aplicar medidas políticas de descriminação positiva da Península.

Mas, algumas das medidas de discriminação positiva passiveis de previsão na regulamentação interna de cada estado (majoração nos concursos de forma a dedicar mais verbas a uma parte específica de uma determinada região, ou contratualizações específicas), estão, à partida, muito condicionadas pelas regras “concursais” e “concorrenciais” impostas pela UE e abençoadas pelo PSD e CDS. E, depois, haveria sempre um forte impedimento intermunicipal sediado nos órgãos da AML, que, pela sua natureza, inviabilizariam esse favorecimento da PS.

Parece, ainda, que as regras europeias quanto às “ajudas de estado” (fundos europeus e fundos nacionais) não serão nem menos, nem mais, limitativas pelo facto de a PS e a GL serem uma só NUTS 3.

Neste difícil contexto não poderá deixar de se colocar, pelo menos para análise, a ideia, mais radical, mas possível no campo das hipóteses politico-administrativas, de agregar a PS a outras CIM vizinhas[7] distintas da Grande Lisboa que, assim, ficaria sendo a única NUTS 2 “região desenvolvida” do país.

Sabe-se bem que estas hipóteses encerram grandes dificuldades de natureza política e, até, de coerência com a ideia de uma regionalização metropolitana que se tem vindo a defender desde há anos.

Mas, salvo melhor opinião, não se deverá ficar cristalizado numa perspetiva idealista de uma gestão metropolitana que não se sabe quando virá. Nem sequer se algum dia se concretizará.

A enorme e prolongada crise económica e social impõe-nos, quer queiramos ou não, um quadro político muito diverso daquele que era antecipável há quinze anos.

Por estas razões seria de reponderar com carácter de urgência os custos e os benefícios para as populações, para os agentes económicos, sociais e culturais, e para os territórios, derivados das opções alternativas aqui ventiladas.


[1] NUT – Nomenclatura Comum das Unidades Territoriais Ver aqui

[2] Traduzida numa lei, enviada pelo PR ao Tribunal Constitucional e chumbada em determinados aspetos, com a qual se pretendia fixar um novo e diferente regime jurídico das autarquias locais; um diferente estatuto das entidades intermunicipais (CIM e AM); um novo regime jurídico da transferência de competências do Estado para as autarquias locais e para as entidades intermunicipais, assim como da delegação de competências do Estado nas autarquias locais e nas entidades intermunicipais e dos municípios nas entidades intermunicipais e nas freguesias, e, finalmente, um diferente regime jurídico do associativismo autárquico

[3] Que, de acordo com a lei reenviada a AR após chumbo do TC  serão unidades administrativas autónomas.

[4] As Regiões NUTS 2 cujo PIB per capita seja inferior a 75 % da média da UE 27.

[5] As Regiões NUTS 2 cujo PIB per capita se situe entre 75 % e 90 % do PIB médio da UE 27 com um tratamento diferenciado para regiões que sejam elegíveis ao abrigo do objetivo de Convergência em 2007-2013

[6] Prevê-se que o envelope financeiro global para o QEC (2014/2020) será de cerca de 303 milhões de euros para a AML, circulando ainda a informação, não confirmada, de que poderia ser reforçado para cerca do dobro.

[7] Duas opções se põem nesse caso: ou ligá-la a 4 dos municípios do Alentejo Litoral (excepcionando Odemira), retomando em grande parte a circunscrição Distrito de Setúbal, ou, então, estendê-la a partes coerentes do Oeste e da Lezíria do Tejo, formando um Colar Metropolitano em redor da Grande Lisboa de onde sairiam Mafra e Vila Franca de Xira para integrarem a novaNUTS 2. Já a autonomização da PS como NUTS 2, afigura-se ser pouco racional e inviável do ponto de vista dos regulamentos comunitários.

O posto de correios de Castro Laboreiro

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correiosEstamos habituados a que a contestação seja uma obra urbana e de gente reivindicativa. Mas as coisas estão a mudar. Por isso, chega a ser comovedor ver as imagens que nos chegam da remota vila de Castro Laboreiro, concelho de Melgaço, bem no meio das serras da Peneda e Laboreiro, em pleno Alto Minho. O que vemos nessas imagens pouco habituais são rostos idosos, envergando roupas de cores escuras – a representação de um certo Portugal rural que continua a resistir no interior do país.

Só qualquer coisa de muito, muito importante para a vida daquelas pessoas as poderia afastar dos seus afazeres habituais em terra tão pacata. No caso, a decisão dos CTT de encerrar o posto de correios da vila. Isto é, o corte da ligação de muitos ao exterior. Melgaço, sede do concelho e local onde se encontra o posto de correios mais próximo, fica a cerca de 30 quilómetros; por estrada tão bonita quanto sinuosa e inacessível a uma população idosa e empobrecida.

Soube-se entretanto que os CTT negociaram a passagem de serviços para uma pastelaria. “Você vai lá tomar um café e eu vou entregar uma carta, quem é que atendem primeiro na pastelaria? Quem dá mais lucro? Isto para não falar dos problemas de responsabilidade e de privacidade que um serviço público como este exige”, perguntou o presidente da Junta de Freguesia de Castro Laboreiro à agência Lusa.

A insensibilidade com que se priva as populações do interior do país de serviços públicos básicos de qualidade, como os correios, é bem a medida do desrespeito a que o poder das grandes empresas com responsabilidades na prestação desses serviços votam os cidadãos. Um desrespeito que obedece a uma opção política deliberada do Estado (leia-se Governo!) – privatizar, tudo submetendo a uma lógica de maximização de lucro.

Quando quiserem fazer o “discurso da desertificação” será preciso recordar-lhes que promoveram e autorizaram o desmantelamento nas terras do interior de tudo quanto é fonte e símbolo de actividade comunitária, serviço cívico e mesmo soberania.

O posto dos CTT de Castro Laboreiro funcionava desde 1957!

Um Testamento para daqui a cem anos ou para o dia seguinte

ImageO Quinteto para Cordas D. 956 de Schubert com dois violoncelos é a obra musical que maior prazer, inquietude e perplexidade me provocam. O próprio Schubert escreveria “O produto da minha genialidade é a minha miséria, é o que eu escrevi em minha maior angústia, é o que o mundo parece mais gostar.”

Talvez nenhuma obra musical nos fale mais directamente à alma e ao coração que este Quinteto. Ao contrário de Mozart e Beethoven, que acrescentaram uma segunda viola ao quarteto de cordas normal, Schubert adiciona um segundo violoncelo o que altera de forma impressionante o som, tornando-o mais escuro, mais grave, mais intranquilo, mais alarmante. Um quinteto que ganha uma beleza dolorosa. Que é um diálogo entre a exuberância da vida e o negrume mais escuro da morte. Vai da alegria mais ilimitada, no scherzo do terceiro movimento para mergulhar, no interlúdio, na mais abismal tristeza. Uma tristeza sem fim, insondável no interlúdio lento que se segue. Tudo parece que irá dar certo, mas nada vai dar certo, nesta obra de câmara que é de facto uma obra de proporções sinfónicas. A música exuberante continua até que o Trio, traz mudança de humor para um interlúdio elegíaco como se o compositor de repente fosse colocado frente ao seu próprio destino dramático, perdido no meio do ruído da vida. O movimento final, Allegretto, é essencialmente um rondo que o compositor desenvolve como uma quase sonata. Durante esse movimento final, Schubert novamente usa os violoncelos em dueto, contrastando a sua ampla linha solene, musical em contraponto aos outros instrumentos, recorrendo à memória dos movimentos anteriores do quinteto. O retorno à música vibrante que abre o movimento rapidamente se perde no labirinto da sombra da morte e, sem nenhuma intenção mórbida, mergulha em funda melancolia. Tudo parece distanciar-se dos confrontos entrevistos anteriormente para Schubert de facto interrogar a vida, o sentido da vida. Como se antecipasse o final das Palmeiras Bravas de Faulkner: “entre a dor e o nada , eu escolho a dor.” Afinal a morte que não apaga a dor. Ou ainda durante a audição da obra é, para mim, recorrente lembrar-me da carta do Consul a Yvonne, em Debaixo do Vulcão, de Malcolm Lowry, que Carlos Oliveira considerava uma das mais belas se não a mais bela carta de amor da literatura e em que a morte é omnipresente.

É esta bela música que quero que ouçam na minha morte celebrando o amor pelos meus adorados filhos e netos. As personagens mais belas da minha vida. E também pela mulher amada, a mulher da minha vida, que não preciso nomear, ela sabe quem é!

Arrisco uma discografia, por ordem das minhas preferências, com tudo o que isso comporta de subjectivo.

1-      Quarteto Alan Berg com Heinrich Schiff

2-      Isaac Stern,Alexander Schneider, violinos, Milton Katims, viola, Pablo Casals, Paul Tortelier, violoncelos

3-Emerson Quartet com Mstislav Rostropovich

4-The Rafael Ensemble com Michael Sterling

5- Quarteto Vegh com Pablo Casals

6- Quarteto Melos com Mstislav Rostropovich

Um ecológico crime ambiental em Loures

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Votovoltaico_EspMilhares de pinheiros-mansos começaram a ser abatidos no início deste mês, numa área de 5,4 hectares da chamada Mata do Paraíso, junto ao Mercado Abastecedor da Região de Lisboa (MARL), para ali ser construída uma central fotovoltaica do grupo Martifer.

O facto está a provocar grande indignação.

A Câmara Municipal de Loures apressou-se a esclarecer que o projeto do muito sustentável e ecológico empreendedor, que contempla 9280 painéis solares, foi devidamente licenciado e reuniu os pareceres de todas as entidades competentes. O abate das árvores, sublinha o município, é do conhecimento do Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ICNF).

O caso demonstra à evidência que não basta olhar-se para o PDM, que se encontra em revisão há vários anos, e licenciar-se um empreendimento para que ele deixe de ser um crime ambiental.

Estamos perante uma situação de clara incompetência e incúria, tanto da câmara municipal como dos organismos da administração central implicados.

Mas, o caso serve para demonstrar, também, os riscos enormes da política desenfreada que está a enxamear o território nacional com centros de produtores de eletricidade fotovoltaica e eólica, na base do custe o que custar.

Já antes se alertou, por exemplo aqui, para a insustentabilidade de uma política energética que alavancou durante anos, através de subsídios pagos pelos consumidores de eletricidade, a exponencial proliferação de aproveitamentos privados das energias renováveis.

O problema não está nas energias limpas (sol, vento, água, marés, etc.,) e na sua utilização para produzir eletricidade, mas sim na forma neoliberal de sua exploração capitalista intensa com vista a um fim principal: lucros rápidos e chorudos.

Enquanto estivermos entregues, nas câmaras municipais e na administração central, a esta gente que enche a boca com discursos politicamente corretos acerca da sustentabilidade e do ambiente, mas que, no fundo, o que visa é estimular negócios de exploração gananciosa dos recursos naturais e humanos, estaremos muito mal.

A União Europeia hoje

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Pobreza infantil

A União Europeia está mergulhada numa profunda crise de que não se vislumbra qualquer melhoria, mas, pelo contrário, um agravamento progressivo, agravamento que tal como um cancro vai metastizando todos os países, mesmo aqueles que, aparentemente, poderão parecer a salvo dele. Hoje, tornou-se claro que o tão cantado processo de integração europeia serviu, apenas, os interesses do capitalismo, dos grandes grupos económico-financeiros que agem de forma premeditada e pérfida para esconder a verdadeira questão: a crise estrutural avassaladora em que está mergulhado o capitalismo. Essa crise manifesta-se a nível económico, social, ambiental, energético, alimentar, cultural e moral.

O desemprego na zona euro subiu novamente, estando em Abril de 2013 em 12,2% no conjunto dos 17 países; 19 milhões de desempregados dos 26,9 milhões da União Europeia vivem nos países que adoptaram o euro. O desemprego dos jovens atinge números impressionantes, o desemprego de longa duração tornou-se uma praga, pois não há trabalho. Os mini-empregos na Alemanha são outra praga que já faz com que governos se queixem do governo alemão, nomeadamente, o governo belga. São já 7,5 milhões, alguns são romenos e búlgaros que ganham entre 3 a 4 euros por hora e sem quaisquer direitos e descontos para a segurança social.

Desemprego e diminuição de apoios sociais (o que também se verifica por todos os países mais ricos da UE) está a provocar um aumento da pobreza. De resto, há mesmo trabalhadores, inclusive na Alemanha, que mesmo trabalhando vivem já abaixo do limiar de pobreza. A pobreza infantil alastra como erva infestante. Uma em cada seis crianças na Alemanha vive na pobreza; ainda na Alemanha 12,8 milhões de alemães viviam abaixo do limiar de pobreza; 67,8% dos desempregados alemães estão ameaçados de pobreza. Poderia dar-vos muitos outros números de vários países, mas cito a Alemanha para tornar mais óbvio como a situação é grave mesmo na maior economia da Europa e ainda a 3ª a nível mundial. A Holanda (que silêncio à volta deste País, tão orgulhoso e presunçoso quanto aos programas do FMI) está em crise (explosão da bolha imobiliária tão grave como a dos EUA e a de Espanha) acelerada e a já com medidas de “austeridade” que só estão a gravar a situação. Um grande banco holandês (DSB) foi à falência, e outro (ABN) foi nacionalizado. (claro, o povo trabalhador que pague).

Nenhum país da zona euro está tão endividado como a Holanda.

O desemprego está a subir, o consumo a baixar e a economia a estagnar. Os novos cortes anunciados pelo seu ministro das finanças são da ordem dos 4,3 mil milhões, cortes que atingirão a saúde e outros serviços públicos. Há rumores sobre a França!

As desigualdades sociais aumentam em todos os países europeus e o sonho europeu (de quem foi o sonho?) integrador, de grande progresso social, fim do desemprego e aumento da inclusão social mais parece um nado-morto gerado na mentira e pela ganância daquela pequena percentagem de multimilionários cuja frieza de raciocínio conhecemos. Aqueles objectivos eram para se cumprir até 2020, gargalejavam eles e mais os seus capatazes pagos a preços de luxo.

Depois, face ao que se passava em 2008, com a pobreza a subir bem como a exclusão social, resolveram que o ano de 2010 era o Ano Europeu de combate às ditas. Conversa fiada para encanar a perna a rã, como se costuma dizer em jargão popular. A pobreza atinge números escandalosos, os excluídos aumentaram sob as mais diferentes formas e as desigualdades sociais sobem em flecha.

László Andor, o comissário europeu do emprego (desemprego, melhor dizendo)) afirmou que a União Europeia atravessa “a pior” crise financeira, económica e social desde que foi criada e que a zona euro está, este ano, “na posição mais vulnerável” de sempre, se forem tidos em conta o desemprego e a situação social. O comissário europeu disse também que cada vez mais cidadãos e políticos estão a começar a procurar soluções que implicam desintegração em vez do fortalecimento do projecto europeu, porque “sentem que a Europa não geriu bem a resposta à crise. Neste âmbito, László Andor reconheceu que “muitas coisas” poderiam ter sido mais bem geridas na resposta à crise. Pois é, mas convenhamos que galinhas e raposas juntas não convivem bem nem nunca conviverão.

Os povos, os trabalhadores dos países da UE, e não só, já perceberam que só a luta vigilante, persistente e organizada poderá combater o seu inimigo mortal, a raposa, que não irá desistir daquilo que o move: o lucro, seja à custa de pobreza de crianças, mortes de idosos, de jovens de asas cortadas, de reformados a sustentarem os seus filhos e a empobrecerem ainda mais, de doentes a morrerem sem tratamento.

A luta foi sempre o caminho dos povos e os povos sabem isso. Se assim não fosse, estaríamos ainda na sociedade esclavagista grega e romana de que tanto nos orgulhamos e na qual só uma minoria era considerada cidadã e com direito à democracia( e à ociosidade).

A Saúde da Península de Setúbal em risco

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Uma vez mais aqui estou para dar o alerta, agora através do 2º comunicado (o primeiro foi de 23 de Abril 2013) dos Órgãos de Direcção da Ordem dos Médicos do Distrito de Setúbal.

DISTRITO MÉDICO DE SETÚBAL

COMUNICADO

   O Conselho Distrital de Setúbal da Ordem dos Médicos tomou recentemente posição pública relativamente à situação dos Serviços de Saúde na sua área de influência.

    Desde então, as informações que foi recolhendo vieram não só confirmar as razões que a motivaram, como também, revelaram o agravamento da perturbação ao normal funcionamento dos Serviços, então denunciada.

   A imposição administrativa da redução no valor a pagar em trabalho extraordinário, necessário para garantir algumas actividades essenciais como por exemplo o Serviço de Urgência, ou a ordem de rescisão dos contratos aos médicos que se encontram em regime de prestação de serviços, recentemente emitidas, está já a condicionar negativamente as Instituições e poderá a curto prazo, vir a limitar de forma significativa a continuação da prestação de um conjunto de cuidados necessários aos doentes.

   Possuindo alguns destes médicos grande qualificação técnica, a resultante perda da capacidade para executar actos médicos que exigem competências e conhecimentos muito específicos vai limitar a acessibilidade a estes cuidados e reduzir a diferenciação já adquirida por algumas Instituições.

   O processo em curso de generalização da contratação de médicos através do recurso a empresas de prestação de serviços, marginalizando os Directores dos Serviços interessados no processo de escolha dos elementos por cuja prática médica serão, em última análise, os últimos responsáveis, e da dispensa de um conjunto de trabalhadores de vários Serviços de Saúde, nomeadamente enfermeiros ou assistentes administrativos e operacionais, vai certamente conduzir à rotura de muitas equipas e à sua desorganização e por esta via à redução da qualidade dos serviços prestados, alterando de forma profunda a normal actividade das Instituições.

   O Conselho Distrital de Setúbal da Ordem dos Médicos não pode, por isso, deixar de manifestar a sua mais veemente discordância com estas medidas, tomadas de forma meramente administrativa e sem qualquer fundamentação técnica ou organizativa que as sustente, que mais parecem destinadas a encerrar Serviços ou a limitar a capacidade de prestação de cuidados das Instituições e a acessibilidade dos cidadãos aos mesmos e que poderão, no limite, configurar actos de gestão danosa das Instituições Públicas de Saúde.

   Por isso, volta a afirmar que está totalmente disponível para participar na elaboração e aplicação de todas as medidas de carácter técnico e organizativo destinadas a melhorar a prestação de cuidados de saúde na sua área de influência e que tudo fará para impedir que sejam postos em causa os interesses dos cidadãos e dos profissionais.

 

   Setúbal, 28 Maio 2013»

A situação agravou-se também a nível da disponibilidade de medicamentos e receia-se que, no futuro, medicamentos inovadores, capazes de curar determinadas doenças como, por exemplo, a hepatite C, sejam uma miragem para os doentes e os médicos.

Temos de tomar consciência que silenciosamente se continua a tentar destruir um dos melhores e mais baratos serviços nacionais de saúde do mundo, admirado e respeitado, por ter conseguido em pouco mais de 20 anos elevar a saude e a assistência médica do País a níveis nunca alcançados e ultrapassando os níveis de muitos paises desenvolvidos.

O socialismo democrático do Clube Bilderberg

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tumb

(imagem)

Bem pode o PS fingir que está interessado em convergências à esquerda, que está preocupado com o crescimento e o desenvolvimento económico do país e com a necessidade de libertar o povo português das políticas de austeridade e recessão.

Bem podem determinados sectores do PS, mais experientes nestas coisas de no momento certo (leia-se na oposição e a precisar de ocupar lugar à esquerda) mascararem-se de socialistas, aparecer em Encontros com as esquerdas e fazerem uns discursos inflamados contra os senhores da finança e a direita.

Se mais provas e argumentos fossem necessários para caracterizar a social-democracia portuguesa e o seu Partido, o PS, a sua opção de classe e os seus compromissos com o capital e a direita, a sua total convergência com o Pacto de Agressão assinado com a troika, com as políticas da União Europeia e a sua identificação com os interesses dos grandes grupos económicos e com esta notícia tudo ficaria esclarecido.

Por mais que tentem retocar a imagem, já a máscara caiu por completo há muito.

Ser humano, ser associativo

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Projetos alvaro cunhal 3

A 31 de Maio (*) assinala-se o Dia Nacional das Colectividades. No passado, como no presente, o associativismo é uma dimensão insubstituível do Homem e da vida em comunidade.

Quantos e quantos aprenderam (e aprendem) os primeiros acordes em sociedades musicais e bandas filarmónicas? Quantos puderam (e podem) praticar um desporto no seu clube de bairro? Quantos ali aprenderam (e aprendem) as mais diversas artes? Como seria possível organizar manifestações públicas como festas e marchas populares, desfiles de carnaval, cortejos etnográficos e tantas outras sem o entusiasmo das colectividades?

As colectividades têm  prestado às suas comunidades, ao longo de décadas, um trabalho de valor inestimável. São, frequentemente, porta-vozes e defensores das populações de onde emanam: dos bairros aos grupos de cidadãos com interesses específicos. Um verdadeiro poder do local.

Assentes nessa extraordinária expressão de humanismo que é o voluntariado, as colectividades ajudam hoje a minimizar o impacto de uma sociedade crescentemente monetarizada e vorazamente dedicada ao lucro. Em tempos eram mesmo a única forma de muitos acederem a bens culturais ou desportivos, perante a ausência do Estado e da iniciativa privada ou a mera impossibilidade económica de largos extractos da população. Hoje continuam a proporcionar esse acesso, com novas valências e opções. O lucro, quando o há, é devolvido à colectividade e aos seus associados sob a forma de acesso a serviços.

Estudo recente estima que cerca de 425 mil cidadãos desempenham funções como dirigentes benévolos desse movimento associativo em cerca de trinta mil associações. É muita gente. São uma verdadeira rede social, uma espantosa malha espalhada por todo o país, presente nas aldeias, nas vilas, nas cidades o em locais de trabalho .

As pessoas que militam no associativismo são, em regra, melhores pessoas. Olham para fora de si próprios e dedicam (em muitos casos a maior) parte do seu tempo livre às suas associações e, por essa via, às suas comunidades. Merecem o nosso reconhecimento.

A vida quotidiana das colectividades sofre por estes dias com “a falta de tempo dos dirigentes, o aumento dos custos de funcionamento, a baixa de receitas por dificuldades das famílias e a pressão das entidades inspectivas como a ATA (finanças), ASAE, IGAC, IPDJ, a falta de apoios públicos” como bem assinala a saudação divulgada pela Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto.

De associativismo presencial e directo evolui-se hoje para novas formas de associação e contacto virtual on-line. E de que se dão apenas os primeiros passos…

Comemorações nacionais – ver aqui. Comemorações no distrito de Setúbal – ver aqui.

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(*) A data evoca o 89.º aniversário da fundação da primeira estrutura representativa do movimento associativo das sociedades de recreio. “Em 1924, nos dias 31 de Maio, 1, 2 e 3 de Junho, realizou-se em Lisboa, na extinta Academia Recreativa de Lisboa, popularmente designada por “Academia do Socorro”, o 1.º Congresso Regional das Sociedades de Recreio, com a presença de 65 sociedades, tendo-se constituído a Federação Distrital das Sociedades Populares de Educação e Recreio que foi fundada por 47 sociedades. Aí foram aprovadas as bases estatutárias” (in Historial da Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto)

Ser Poeta…

Ser poeta é viver noutro planeta, é ser fantasioso, nebuloso, pasmado, e fazer rimar palavras como quem cria um jogo de sonoridades e de múltiplos sentidos. 

Ser poeta é ser nómada, quase como quem anda perdido, em busca de um verdadeiro sentido para o amor e para a vida, em terra de homens.

Ser poeta é transportar a dor e a alegria, fingindo que se sente. É ver o mundo inteiro, é ser íntegro, mesmo nos momentos mais confusos, é ser como a água e o sal, é ser solidário, amigo, por dentro e por fora, gostar da vida e tocar com a palavra escrita a essência da alma humana.

Alguns,uns mais que outros, elevam-se, não por altivez ou vaidade, mas porque os seus sentidos, de tão sensíveis a tudo o que existe, lhes entregam a incumbência de florir, como se de uma semente, de uma árvore ou de um fruto se tratasse.

Que mistério transporta consigo o poeta para ser alguém assim tão especial?
Se eu ainda fosse criança diria que talvez o poeta faça parte do mundo da magia e, onde toca, tudo transforma.

Deve ser bom ser poeta!

Gurus das Frases Feitas

ImageVivemos numa época em que a magreza das ideias ou mesmo a sua ausência é suprida pelo falar e escrever frases empoadas que são atiradas para o ar, envoltas numa poalha de ouro que vai-se ver e é brilhantina do latão mais rasca. Na economia, na culinária, a literatura alcança mesmo os picos da imaginação. É vulgar em receitas da cozinha internacional pós-moderna encontrar frases como: “X em sua cama de verdes viçosos do campo”. Lê-se a receita e os verdes viçosos do campo é alface! por esses fornos acima, é uma escrita desatada. Na economia a cada naufrágio solta-se a língua como uma salva-vidas. Eles são os produtos tóxicos, os remédios ou não sei que mais, sem esquecer essa pérola que é o crescimento negativo! Por dá cá aquela palha tudo tem que ter  sustentabilidade, em tudo se persegue o que é sustentável, sustentado. E claro qualquer coisa faz sempre parte de um plano integrado de… Um jargão que entrou nos léxicos. Térmitas que todo o mundo usa a propósito e a despropósito. Todos os dias tropeçamos com frases dessas, de pompa e circunstância, que não dizem nada e parecem dizer tudo.
No outro dia caiu em cima da minha de trabalho esta frase, um pequeno e refulgente diamante em resposta a um inquérito feito por uma entidade oficial sobre indústrias culturais e criativas, projectos e objectivos para indústrias culturais e criativas. A pergunta nem interessa qual é. A resposta podia ser à pergunta onde calhou mas em qualquer uma das outras também não deslustrava o seu autor e ficava sempre certa no contexto. É a enorme virtude destas frases.

. Rezava assim:

CRESCIMENTO SUSTENTADO

DA ECONOMIA DO CONHECIMENTO

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Perceberam? Têm dúvidas? Ofereço-vos uma chave para entenderem a profundidade da frase. A mesma que utilizei para ser tocado pela graça de a entender na sua magnitude, na excelência do conceito que encerra. Auguramos ao seu autor um risonho futuro sustentado em mais frases destas que devem deixar embasbacados os utentes de qualquer areópago por onde passeie a sua ciência de frases feitas a tilintar nas orelhas dos ouvintes, com o efeito da flauta de Hamelyn.

Gazua auxiliar de decifração:

1.Crescimento da economia sustentada do conhecimento

2.Crescimento da economia do conhecimento sustentado

3.Crescimento do conhecimento sustentado da economia

4.Conhecimento sustentado da economia do crescimento

5.Conhecimento do crescimento da economia sustentada

6.Conhecimento da economia do crescimento sustentado

7.Economia sustentada do crescimento do conhecimento

8.Economia do crescimento sustentado do conhecimento

9.Economia do conhecimento sustentado do crescimento

E etc.

Se tiverem insónias podem continuar. sempre é mais divertido do que contar carneiros.

Quando Bach Canta a Morte

A cantata  Ich habe genug , em tradução muito livre quererá dizer “para mim é suficiente” ou “para mim, basta” ou ainda “para mim já chega”, é uma das cantatas mais conhecidas e celebrizadas de J.S.Bach. Uma extraordinária cantata em que a música, de forma comovente,  acentua o ar de cansaço, de lassidão com a vida que prepara a aceitação bemvida, quase alegre da morte. Quase quando a vida deixa de ser uma dádiva e a morte é recebida quase como uma bem venturança. Numa antecipação quase vivaz da morte depois da vida ter perdido sentido e em que o sentido da vida é o de aceitar quase exuberantemente a morte. O que J.S. Bach torna bem visível na linha melódica final em que a palavra Freuden (alegria) é apoiada por um canto do oboé muito ornamentado.

A cantata Ich habe genug, sendo uma das mais celebrizadas de J.S.Bach, era uma das suas preferidas, como se pode inferir das inúmeras vezes a  que a ela recorreu, nomeadamente em “Schulmmert ein the matten Augen” numa versão para soprano, flauta e oboé na compilação de músicas, “Pequeno Livro de Cravo para Ana Madalena Bach” (ouçam-na na voz de Elly Ameling com Gustav Leonhardt,cravo,Johanne Koch, viola de gamba, Angelica May, violoncelo, Rudolf Ewerhart,positivo/ não encontrei no You Tube) que dedicou à sua segunda mulher Ana Madalena.

Registe-se que no catálogo BMW de obras de J.S.Bach, com mais de mil entradas, esta cantata tem o número 82, o que mais evidencia a enorme genialidade deste músico Ouçamos esta cantata numa interpretação excepcional de Hans Hotter, um barítono-baixo bem conhecido de outras interpretações extraordinárias, como um Winterreise de Schubert que faz dessa viagem solitária a mais negra de sempre ou um Wotan, do Anel dos Nibelungos de Wagner que é quase inultrapassável.

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Electro-DECO

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decoA DECO – Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor, que tem como missão “a defesa dos direitos e legítimos interesses dos consumidores”, meteu-se numa empreitada de contornos inéditos: promoveu um leilão com o objetivo de obter das empresas que comercializam eletricidade ofertas para fornecimento, por um ano, a um conjunto de candidatos a clientes, para o efeito previamente inscritos.

Antes desta iniciativa as empresas comercializadoras, lançadas na corrida aberta pela liberalização, já vinham concedendo alguns descontos “colossais”: 2% na EDP e de 5% na Galp, ambos sobre o preço final da conta, sem IVA. A Endesa dava também um desconto de 5% sobre o preço da energia. A Iberdrola e a Fenosa têm vindo a estudar o assunto.

É necessário esclarecer que, grande parte dos consumidores domésticos de eletricidade se mantém ainda no sistema de tarifas reguladas. Mas estão, contudo, sujeitos a uma enorme e inaceitável pressão do regulador para se mudarem para o “mercado liberalizado”.

Formalmente não são obrigados a mudar, mas, através de uma tarifa transitória que aumentará de três em três meses, estão a ser empurrados para os braços dos comercializadores em regime liberalizado. Desde que saiam do sistema regulado, não poderão regressar.

Ou seja, estamos em período de caça ao consumidor, durante o qual tudo vale.

A empresa vencedora de leilão foi a espanhola Endesa, liderada em Portugal pelo ex-secretário de estado Nuno Ribeiro da Silva, que tem vindo a dizer um pouco por todo o lado que não é possível haver mercado liberalizado de eletricidade sem aumentar os preços/tarifas de partida. Há vinte cinco anos atrás dizia que a liberalização e a privatização eram vitais para que os preços descessem.

A EDP afirmou que é difícil haver preços mais baixos no mercado livre e não foi ao leilão.

A Galp também não foi e alegou que as condições propostas pela Deco “não permitiam a elaboração de uma oferta competitiva para as famílias portuguesas e com racionalidade económica”.

A mesma coisa se passou com as restantes empresas e, assim, a Endesa concorreu sozinha.

Parece que a grande competição aconteceu, afinal, na negociação das condições que a própria Deco colocava à Endesa. Condições, diga-se, em favor da Deco, porque entendeu fazer-se cobrar pelo “serviço” exigindo inicialmente, por cada cliente angariado, cerca de 15 euros, baixando no final para os 5 euros. Coisa que foi alvo de fortes críticas, com a associação a ser acusada de estar a usar esta operação para se financiar.

Consta que as negociações não decorreram nos souks de Marraquexe.

Dos 578 080 potenciais clientes inscritos na iniciativa “Pague menos Luz”, a Deco espera que cerca cem mil adiram.

A partir de 15 de maio, os inscritos no leilão recebem no correio eletrónico a proposta de tarifário e as respetivas poupanças e têm até 30 de junho para subscreverem o contrato, que é válido para as tarifas simples e bi-horária.

Diz-se que as poupanças anuais que os sortudos futuros clientes da Endesa poderão montar a uns fabulosos 5%, ou seja, entre 1 euro (oito cêntimos por mês) e cerca de 80 euros (seis euros e meio mensais) consoante a dimensão da sua fatura mensal. Para um cliente pobre significa poder beber dois cafés por ano, e, os consumidores mais abastados, poderão comer mais uma bifana e um fino.

Nada mau nos tempos que correm dirá a Deco, acrescentando que além da fabulosa poupança monetária, a Endesa garante um “tarifário” em estabilidade do preço por um ano. Depois logo se verá.

Ah! Não esquecer que a Deco impôs uma questão verdadeiramente superlativa: os contratos não poderão ter frases escritas em carateres de pequenas dimensões. Para que os clientes não sejam enganados.

Não se perderá tempo com as envolvências éticas e legais da atuação da Deco, mas, não é possível deixar de anotar que esta associação, que faz parte de órgãos paritários de regulação pública do setor elétrico, exatamente como representante dos consumidores, aparece, nesta operação em concreto, como parte interessada num negócio de comercialização de eletricidade (a explicação de que o valor que cobra é para as despesas não colhe).

Ao colaborar desta forma canhestra numa operação que, no fundo, serve para dar a impressão de que existe “mercado livre” a funcionar, pôs-se numa posição que a debilita.

Isto, claro, se a Deco pretende ser uma associação de defesa dos consumidores e, não, uma Electro-DECO S.A.

 

Richard Wagner / Bi-Centenário do Nascimento

Image Na história da música não haverá compositor tão radicalmente inovador como Wagner, de que hoje se comemora o bi-centenário do seu nascimento.- Richard Wagner, polémico, egocêntrico, megalómano e genial, Wagner revolucionou completamente a forma tradicional da ópera. Do estilo padronizado da ópera, das suas concepções cénicas do modo da fruição da ópera. Perseguia e impôs a ideia da Obra de Arte Total em que a ópera se assumia como Drama Musical onde confluíam música, drama, dança, pintura e poesia como um só elemento, indissolúvel e permanente, aproximando a ópera da tragédia grega. As suas três primeiras óperas, As Fadas (1834), Rienzi (1840) e O Navio-Fantasma (1841), ainda são escritas no estilo dogmático da ópera tradicional, com divisões entre cada secção, árias líricas que ponham em evidência as qualidades dos cantores. A visível influência de Gluck ficava sepultada pela genialidade que se começava a desenhar na música de Wagner. na sua continuidade adaptou o “motivo condutor” ou leitmotiv, técnica desenvolvida por Berlioz, para escrever duas obras-primas Tannhäuser (1845) e Lohengrin (1848), baseados na mitologia germânica que logo em seguida seria sua maior fonte de inspiração.

A partir daí, beneficiando do apoio ilimitado do rei Ludwig da Baviera seu grande admirador desenvolve as as teorias de Arte Total e projecta e constrói em Bayreuth, um teatro para encenar  e representar os seus Dramas Musicais. A ópera e a História da Música, nunca mais seriam as mesmas.

Wagner  estabelece  na ópera um género novo como Mário Viera de Carvalho em “Razão e Sentimento na Comunicação Social” ( Relógio D’Água,1999) refere: “Wagner, quando descreve (Oper und Drama -1851) a «linguagem dos sons» como «principio e fim da linguagem das palavras», como «orgão de expressão originário do intimo humano», como  «a expressão mais involuntária do sentimento intimo estimulado de fora» e afirma que «uma maneira de se exprimir idêntica aquela que hoje é somente própria dos animais foi de qualquer modo a primeira usada pelos humanos» e tinha de se apresentar necessariamente como  «melodia»  ou «melodia primordial» [Urmelodie]. Por isso, a música era, no drama musical, a mulher, que competia à palavra fecundar, e a harmonia era o «organismo feminino, que paria», depois de receber do poeta «o esperma fecundador». A concepção da mulher segundo Roussel está naturalmente presente nesta forma de expor a «essência da musica»:A música é uma fêmea, A natureza da fêmea é o amor: mas esse amor é o receptivo e aquele que se entrega sem reserva na recepção. A fêmea só adquire total individualidade no momento da entrega. É a ondina que voga desprovida de alma nas vagas do seu elemento até receber a alma através do amor de um homem.” Continue reading »

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